quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cinema com Coca


Sempre que vou ao cinema, eu deixo de propósito um espaço no estômago só para a pipoca e o balde de Coca- Cola.


Isso significa que não posso ter almoçado ou lanchado com “intensidade”(se é que vc me entende): perderia a fome, e não aguentaria comer o “lanche oficial do cinema”.


Aconteceu uma vez, e foi frustrante...sentia o delicioso cheiro das pipocas ao meu redor, o barulho do mastigar das mesmas...mas não sentia vontade de comer...
Ouvia o “borbulhar” das Coca-Colas ao meu redor, o barulho final do canudo raspando os copos, a verificar se ainda havia uma gota da preciosa água negra criada pelo homem...


Cheguei mesmo a ouvir arrotos de agradecimentos ao criador da Coca-Cola...e os vários copos que estavam nos porta-copos das poltronas, como num grande estacionamento...
Eu via tudo...mas não sentia nada...estava sem fome...
Me senti um eunuco dentro de um harém!!


Assim, fui ver Leo Di Caprio no seu novo filme de espionagem, que se passa no Oriente Médio,munido de minhas companheiras: a Coca e a pipoca, que sempre conviveram bem uma com a outra- e com um pouquinho de fome.
Quem disse que vou ao cinema sozinho? Elas sempre estão comigo!


Lá pelas tantas do filme, na minha fileira, começo a perceber um “zum-zum-zum”...pensei que fosse só adolescentes falastrões, mas era muito mais do que isso.
Eles também estavam munidos de coca...mas não a minha Coca, ou da maioria dali...
Uma garota de não mais que 15 anos e seus amigos debilóides de 16, no máximo, estavam cheirando cocaína.


Eu via a garota tirar da bolsa, botar a “carreira” num daqueles celulares mais comprido, e aí cada um enterrava o nariz na sua “cota”.
A menina num devia estar muito acostumada- espirrava toda hora, e os moleques ficavam mais abobalhados do que já eram, rindo sem parar, sem motivo...


Minha reação?

Primeiro
, fiquei pasmo...vc quer cheirar, quer “dar” (já vi cada coisa tb ao longo dos anos no cinema, mas xápralá), quer se matar, procure outro lugar.
A gente fica pasmo ao ver moleques brancos de classe média, todo arrumadinhos, com tudo na vida, se perdendo desde cedo...ali, há duas poltronas de mim, e não numa favela.


Segundo, fiquei P da vida (esse p, vc sabe, é de 'por conta') com a irresponsabilidade daqueles moleques, bancando aquela situação, como tendo a certeza de que nada iria acontecer com eles...

Pensei em dar um 'sporro', mas eu ia me aborrecer se um deles falasse algo, doidão como estavam não era difícil...


Pensei em caguetar prum funcionário do cinema, mas aí ninguém ia voltar o filme pra eu ver...eu sento lá em cima...

Pensei em caguetar pro Leo Di Caprio, bem na minha frente, que era um agente da CIA, pra interrogar, com tortura, de onde veio aquela coca...

Pensei em entregá-los pro pessoal da Jihad Islâmica, também na minha frente, já que Atambém odeia as drogas...


Mas, em terceiro lugar, me veio um sentimento quando acabou o filme, e vi aqueles moleques indo embora:


Compaixão...eles estão se perdendo, tendo tudo o que muitos da idade deles não tem...estão fugindo de algo, e provavelmente os pais nem desconfiam, até que sejam presos e estiverem numa delegacia de menores da vida...vida essa que eles estão deteriorando.


Fiquei um tempão sentado, pensando naquilo..fui o último a sair da sala, e passando por onde estavam, não resisti e me abaixei pra ver se havia um vestígio da coca que eles usaram:

No passado,eu já trabalhei em clínica pra dependentes químicos, cansei de aprender maconha, coca, pílulas as mais variadas.


Nada...só uma embalagem de Trident pela metade.
Cada um consome a coca que quer...eu, continuarei indo ao cinema, com pipoca e Coca-Cola...mas nunca ia imaginar nego consumindo outro tipo de coca, logo ali ao meu lado.

Chegam as meninas da limpeza, e finalmente desço as escadas...


Mascando “Trident” de menta.
Lee

(Na Sessão revival, uma animação sobre o assunto- veja em vídeos no meu orkut)