quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Memórias 3 – Vida de Goleiro


O gol está para o futebol assim como o rei está para o xadrez: é a meta a ser alcançada.

Mas antes do gol, tem um goleiro...um cara que se veste diferente dos outros, um cara que não tem medo de levar bolada, um cara que passa a maior parte do jogo sozinho, Um cara que enxerga o jogo por outro ângulo, um cara...diferente.


Era ali que eu tinha que jogar.


Meu ex-cunhado era goleiro, e tinha ido nos visitar naquele ano na Grécia.
Ele foi fazer testes no Panathinaikos, clube grego, e ficou algumas semanas treinando lá.
Eu ia com ele, e assistia os treinamentos, o técnico era um brasileiro...tinha jogador de todas as partes do mundo.


Mas minha estréia no gol foi quando fui pra Alemanha, um ano depois... vencemos por 7x1.
Deveria dizer que a única bola que eles chutaram no meu gol entrou??
Mesmo assim, um moleque do meu time, já bem mais velho e que era uma espécie de capitão do time (ele devia ter uns 14 anos) disse para mim, no final do jogo:” Sehr gut, torwart” (muito bom, goleiro) .


Mas eu num tinha feito nada!


Na verdade, essa pelada foi quando fui visitar meu tio (já falecido),em Hamburgo:
Os moleques lá jogavam “pelada” mais do que na minha cidadezinha, Reinbach.
Na escola,a prioridade na educação física não era o futebol, que só me lembro ter jogado uma vez, e sim, a ginástica olímpica, e a natação, da qual eu fazia parte:os ombros largos vem dessa época.


Mas a 'sementinha' do goleiro já havia sido plantada.
Quando voltei ao Brasil, já com dez anos de idade, a coordenação já era boa, e assim que começava o futebol, eu ia logo pro gol: os meninos adoravam, pois ninguém quase gosta de ir pro gol.


Na igreja, também tinha futebol aos sábados... eu virei goleiro do time dos adolescentes, e pouco tempo depois, ainda com 14 anos, faria minha estréia entre os adultos.


Se vc acha que nego me ajudava, não chutando forte,está enganado...mas eu nunca tive medo de chute forte, pois na época já jogava também futsal no América, daqui do Rio: fiquei dos 13 aos 14 anos, numa época em que bola de futsal parecia bala de canhão.


Precoce, jogava ao lado de adultos de 20, 24 anos, e todo chute era muito forte, ao contrário dos moleques que eu jogava- mas O 'goleirinho', como me chamavam (naquela época eu era pequeno) voava sem medo nas bolas, e se atirava aos pés dos atacantes como um Kamikaze- quebrei dois dedos assim, que não fecham na mão até hoje.


Resultado: passava o dia todo jogando bola aos sábados: antes a tarde com os adolescentes, fui convidado a ir de manhã com os adultos. Meu almoço era um pedaço de pizza com Coca-Cola ou Guaraná, depende o que tinha na hora, no bar do português.


Numa raríssima vez que meu pai foi assistir a um jogo meu (só jogamos juntos uma vez na vida- foi a única vez que ele brincou de bola comigo) uns 4 caras cercaram ele e disseram:”Por que vc não leva seu filho pra fazer um teste num clube?”
Ele morreu eu era ainda adolescente, e nunca me levou pro teste...mas pelo menos, me apresentou ao cinema.


O tal teste eu fui fazer sozinho, nas Laranjeiras, lá no Fluminense...isso por que era o mais perto de casa,pois o meu Botafogo, na época, era em Marechal Hermes.
Mas já tinha 16 anos...faltando só dois pro profissional (naquela época não tinha esses lances de sub-20, etc).


E num é que passei? Mas estavam acabando as férias de julho, e só pude treinar duas semanas- eu estudava á tarde, e a prioridade eram os estudos, segundo minha mãe.
Hoje, tem mãe que leva seus filhos pros testes...a minha, não sabe nem qual é meu time...rss!


Da 5ª série até a faculdade, fui titular em todas as minhas turmas.
Chegava suado á sala de aula, e sujo, depois dos intervalos: eu era goleiro...só eu pulava no chão.


Fui goleiro da seleção do Colégio Militar (campo) pos 2 anos, conquistando 5 títulos nesse período.
Por dez anos seguidos, só levei 2 frangos: eu agarrava muito, fosse em futsal, futebol de campo, praia, ou handebol. Até em Waterpolo já fiquei no gol...só nunca agarrei no Hóquei!


Muito antes de Rogério Ceni fazer seus gols, eu já marcava meus golzinhos...
Essa semana mesmo, marquei, de penalti, meu 17º gol no ano como goleiro: foram 5 de penaltis, 3 de cabeça em escanteios(qdo meu time tava perdendo ou empatando) e o restante indo pro ataque em escanteios, pegando sobra.


Claro que as subidas envolvem riscos: levei 2 gols por cobertura...mas o saldo é bom.
Defendi 3 penaltis esse ano, sendo dois num mesmo jogo em que perdíamos por 4x2, e viramos pra 5x4...


Adoro jogar na chuva...meu melhor jogo, foi na chuva, e perdi por 3x2.
Sofri 8 gols num só jogo, que perdi por 8x1- minha maior derrota até hoje.
Era meio maldoso no início, entrava rachando...quebrei muita gente...só depois mudei.


Maier (Alemão, claro) me ajudou muito- comprei um livro com segredos da posição, que ele escreveu, e isso foi fundamental...foi um dos melhores goleiros do mundo.


Gatti e Fillol, a escola argentina...um maluco, e outro mais centrado, com uma coisa em comum: ambos sabiam jogar com os pés, numa época em que isso não era comum.


Higuita foi o mais maluco...era um barato vê-lo jogar...saindo correndo da área, bater faltas e penaltis, sendo baixinho daquele jeito...assim como o mexicano Jorge Campos.

O Marrento do Leão, atualmente técnico, agarrava muito, aqui no Brasil.


Hoje, jogo futebol society, com seis na linha e um no gol.
Ás vezes, nego tá cansado, corre na minha direção, quer me dar o colete pra eu ir pra linha e ele ficar no meu lugar.


Eu digo que não...”respira que tá acabando”.
Não vejo a menor graça em jogar na linha.


O meu “gol” é fazer uma defesa...
Ou quando, de goleiro, faço um gol, e saio correndo pra trás, desesperado para não levar outro!


Lee – que em vez de usar a camisa 1, usa no gol, a camisa ...10.


Na sessão revival 2 vídeos de goleiros- vá em vídeos.
Amanhã: capítulo final - “Revelation day”...se prepare para algumas revelações.