quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Memórias 4, Capítulo Final: Revelation Day



Quando meu pai morreu, seis meses antes tive um sonho profético, que alías, acompanham minha vida até hoje.


Eu via ele caído, morto, no convés do navio, envolto em uma poça de sangue, como se eu fosse uma câmera, filmando a cena...a seguir, eu tinha como se fosse a imagem da visão dele, caído: via os marinheiros chegando desesperados, muitos em prantos.


Eu levantei da cama, e na época,era das raras vezes que ele estava em casa...contei a ele o sonho todo, e cético, ele riu: “É só um sonho”.


Quando as assistentes sociais tocaram na porta de casa, fui eu que abri a porta: eu já sabia que ele estava morto assim que olhei pra elas...naquele dia, olhei fixamente para o relógio, uma da tarde - foi a hora da morte dele...duas horas depois elas chegaram.
Ele sempre foi um cara zeloso no trabalho, e foi verificar uma coisa que não tinha nada a ver com ele: A âncora do navio, que estava emperrando.


Quando ele foi verificar o mecanismo que faz girar a grande corrente, alguma coisa arrebentou...e uma parte da corrente foi em cima dele, igual uma chibatada, direto na cabeça dele: O traumatismo craniano foi tão forte, que afundou a testa dele.


Ele caiu morto no convés, envolto a uma poça de sangue...como no sonho...os marinheiros, desesperados, corriam sem saber o que fazer, chorando...como no sonho.
O legista teve um trabalhão pra remendar a testa dele.


Segunda ele morreu, terça-feira foi enterrado, e na Quarta-feira, vc já sabe onde fui me refugiar: no cinema, moídinho, moídinho...Michael Douglas viu como eu tava, pois o cinema tava vazio.


Sem meu pai, agora “oficialmente”, por mais que eu quisesse, não conseguia encontrar um mentor que prestasse...nenhum deles me passava confiança:


O meu Pastor de então (o que tava fazendo filosofia), nunca me inspirou em nada...estava mais preocupado com os interesses particulares dele, do que com a vida espiritual da congregação: emendou cursos de psicologia e direito, e quem batia as monografias, era a secretária dele.


Professores? Nenhum 'instinto paternal' neles foi identificado por mim...na verdade as professoras foram as minhas maiores incentivadoras, especialmente a dona Ângela, na quarta
série...


Comecei a achar a escola um “ saco”, e fiquei reprovado no Colégio Militar: naquele ano, só passei em português e Inglês... mesmo assim, não estudei para nehuma das provas, que eram super-difíceis...era o melhor aluno de redação nas turmas.


Devo isso a dona Ângela, na 4ª série, que me estimulou a ler...e tb graças aos 150 números de Capitão América, Hulk e Homem-Aranha, que eu colecionava.
Num disse que o primeiro texto que li na Bíblia foi sobre um estupro, e eu entendi? Era ou não era precoce?


Sem mentores masculinos, resolvi fazer de Deus meu mentor...e meu Pai.


Assim, lendo livros missionários e inspirativos, sentia cada vez mais um chamado ao ministério...e continuei, sem parar, indo a Igreja todos os Domingos.

Quando entrei no seminário, já no primeiro semestre, estava ajudando um veterano Pastor numa congregação no morro (era a primeira vez que subia num morro na vida).
Seis meses depois, quando ele ia sair, me chamou, sentou-se na minha frente e mandou: “Vou assumir uma Igreja em Minas Gerais, e quero que vc fique de Pastor em meu lugar”.


Tinha uma semana pra pensar...ainda seminarista, ainda um pós-teen (rssss!), ainda me sentindo sem a experiência necessária, disse não.


Aquela congregação era afiliada a Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, e só na congregação, de apenas 20 pessoas, o Pastor recebia 7 salários mínimos, plano de saúde,e tinha um casa pastoral, fora do morro, com...piscina.
Tudo dado pela “Igreja-mãe”.


Nego no seminário ia atrás de mim, pedindo pelamor de Deus pra que os indicassem.
Num indiquei ninguém, num lido com coisas espirituais dessa forma...podia estar bem humanamente falando, já aos 20 anos, quando isso ocorreu-mas num senti que era hora.


Só fui ordenado 2 anos depois que saí do seminário. Perambulei por aqui e ali, e mais tarde, voltei para minha igreja de origem, e lá, assumi a função de pastor dos jovens.


Imediatamente, pedi autorização ao pastor titular, um veterano sessentão, para fazer uma espécie de 'culto da juventude', uma vez ao mês.
Já tínhamos espaço uma vez por mês aos sábados, mas ninguém ia, só uns 15 jovens e adolescentes, e olhe lá- na verdade, uma leva de jovens tinha se mudado pra outras igrejas, pois não aguentavam mais o culto tradicional e morto que havia ali.


Essa igreja é uma das mais antigas do Brasil, com mais de 100 anos de idade,mas estava morrendo...quem num tinha ralado, pensava em sair...e havia um índice muito grande de idosos: só eles aguentavam tamanho marasmo.


É nesse cenário que surgiu o culto jovem, uma vez ao mês...nada demais, era igualzinho ao culto de minha Grei atual...como todo culto deveria ser: alegre, com mistura de canticos e hinos(no outro, era quase somente de hinos)...e com mensagem de qualidade.


Ninguém entendia as mensagens do velho Pastor, que foram ficando mais fracas ao longo do tempo...no final, já nem tinha mais, e ficava repetindo mensagens de anos anteriores ”sob uma nova perspectiva”, dizia ele...que nada- num tinha mais nada a ser espremido, daquela laranja não saía mais caldo.


Resultado: nego ficava ligando pra secretaría da Igreja, perguntando quando ia ser o “culto jovem”- quando era a nossa responsabilidade, eu caprichava, pois não era pra mim:


- Colocava sempre um jovem para dirigir o culto...já no final, colocava até adolescentes, todos escolhidos a dedo por mim: não podia ser qualquer um.


- Fazia a 'ordem de culto', um boletim que é dado com a programação daquele culto, tudo o que ia acontecer, era só acompanhar, bem mais 'enxuto' do que o culto normal;


- Escrevia de punho a pastoral do dia, na frente do boletim, uma espécie de 'editorial'...acabava escrevendo uma mini-mensagem, igual a que vcs lêem no meu Orkut

(o Velho Pastor só retirava artigos de revistas cristãs, não escreve nada de punho);


- Me vestia como as pessoas da congregação se vestiam- nunca usei um terno, ou botei uma gravata...até os mais velhos, que me olhavam de cara torta, no início, se acostumaram;


- Fundei uma banda, o Yasha( salvação, em hebraico), que tocava até bossa-nova! Eu era o baterista, e compositor da banda.


A reação do povo foi imediata...eram os cultos mais cheios do mês, aos domingos:
Tinham que buscar cadeiras no salão lá embaixo, pois o auditório enchia.
A unção fluía tanto, que quando eu pregava, algo entre 20 a 40 min no máximo, nunca vi ninguém dormindo, nem passando torpedinho, nem conversando: dava para ouvir um alfinete caindo, tamanha era a atenção, de adolescentes a idosos.


Mas aquilo começou a incomodar o velho Pastor...e o maior de meus inimigos até hoje, voltou a se manifestar: A Inveja.


Como a igreja ficou “sacudida” com tudo o que estava acontecendo,logo vieram mais cargos: Diretor de Educação cristã,Professor de classe(adoro dar aulas) bíblica, e virei segundo vice-presidente da igreja.
Na classe, de 20 alunos, passou pra 40 em seis meses...tudo aquilo que eu fazia, Deus abençoava...ele sabia que num era para eu aparecer,mas tudo o que falava e fazia, conduzia a Ele - “sola Dio Glória”.


Quem se levantava contra mim, sem razão, Ele pesava a mão: quando chegou uma bateria nova, precisei ensaiar nela, pois trancaram uma porta lá em cima e sumiram com a chave.
Liguei para o Velho Pastor dizendo do ocorrido, e este autorizou que eu ensaiasse na nova. Mas este não avisou a responsável, e não manteve a palavra de autorização dele, (pois na verdade, já queria me queimar- era a primeira oportunidade).


A mãe da menina responsável, no domingo seguinte, faltando poucos minutos para o culto onde iria pregar, me chamou no canto e disparou: “não te reconheço mais como Pastor, Homem e Levita (os músicos, na Bíblia)”
Mantive a calma,e não liguei para aquela idiotice- iria pregar.


15 dias depois, uma das filhas dela, ainda sem filhos, teve que extrair uma trompa- não poderia mais ter filhos;


O filho dela terminou o casamento no mês seguinte: a mulher descobriu as sacanagens dele com outras, e partiu pra cima dele com um facão na mão;


O marido dela se internou as pressas: teve um infarto quase fulminante;


A outra filha teve uma doença misteriosa, em que os ossos vão se deteriorando, só com 32 anos: é uma dor alucinante, e não tem cura.


Várias vezes isso aconteceu, eu ia perder um texto só falando disso: e isso valia lá pra fora, também: no meu serviço (eu funcionário público, nunca recebi um centavo da igreja, mesmo trabalhando mais que o pastor principal) um colega tentou botar a culpa em mim de um sumiço de uma coisa que ele roubou.


Fui pra inquérito administrativo e tudo mais, sendo absolvido... o mané se matou há um ano atrás, num motel do centro da cidade, cheio de coca. Até hoje, essas coisas me assustam.

O contrário, também ocorria: quem me ajudava em alguma coisa, era grandemente abençoado.


Após 3 anos, já cansado e sem apoio, e com muitos problemas do serviço secular,ainda tinha uma coisa que estava acabando comigo: Um péssimo casamento.


O casório foi uma das piores experiências que tive na vida- foi um ano horroso repetido várias vezes, pois no primeiro mês já sabia que aquilo tinha validade determinada.


Por isso, não tive filhos- no fundo, sabia que iria me separar, só não sabia quando.
Pela falta de um Pai de verdade, de um Pastor conselheiro, de um amigo de verdade (não os que me disseram depois: eu sabia que não ia dar certo, vcs não tinham nada a ver- por que não disseram antes?) embarquei numa furada.


Não assisti nenhuma cerimônia de casamento por 5 anos: relembrava minha tristeza ao entrar na Igreja...
Eu da cidade grande, praticamente filho único (tenho uma irmã de criação) a ex era do interior,com 15 (!) irmãos. Criações diferentes,mais falta de amor, visões diferentes e uma lista enorme de sinais que eu ignorei antes e estouraram depois(veja esses sinais na série Pense bem antes de casar, veja no arquivo do blog), muita tristeza e infelicidade,viraram uma bomba- relógio pro meu coração.


Literalmente- fui parar na emergência do Hospital com arritmia cardíaca.
Eu precisava operar logo, pois senão poderia ter um enfarto, ainda novo.
Assim fui parar no Copa´dor, onde fui operado-ainda bem que não precisou abrir o peito, foi via catéter, mas pela virilha.



Foi a única Copa do mundo que eu assisti num Hospital (parte dela).
O médico disse que eu precisava mudar de vida- ele mal sabe o que eu havia decidido quando fiquei sozinho naquele quarto...



Eu sabia o real motivo daquilo tudo, e que se continuasse infeliz ao lado de alguém que não sentia nada, e vivendo em conflito, iria morrer, iria enfartar: a cura pro meu coração implicava em separação.


O divórcio é mal visto nas igrejas- divórcio de pastor, mesmo que não fosse pastor titular ou remunerado, é praticamente inaceitável.



Por isso, conheço um monte de pastores cujos casamentos já acabaram, mas eles não se divorciam por medo. Muitos deles dormem em quartos separados, mas na grei parecem o casal-modelo, o mais feliz do mundo...alguns deles já pregaram até na minha atual igreja.



Como eu não quis viver uma vida de mentiras, ao final do mandato, entreguei os cargos e paguei o preço:



Dos 40 jovens que liderei, só um me ligou pra saber se estava vivo;


Como ninguém entendeu nada,e eu não dou satisfação de minha vida a ninguém a não ser Deus, começaram a inventar um monte de fofocas, a principal delas que tinha arrumado uma mulher;


Era quase como se eu tivesse cometido um crime...alguns esperavam que eu retornasse, pois imaginaram que meu casamento era um conto de fadas- e eu nunca vendi essa idéia. Devem ter cansado de esperar...


Pensaram que eu tinha me 'desviado' da Igreja...mal sabiam que nunca deixei de ir a uma igreja aos domingos, nesse tempo todo- e ir a igreja não é sinal de comunhão com Deus;


Gente que eu ensinei, aconselhei, encorajei, visitei no hospital, comeu na minha casa, comi na casa deles, fiz enterro de parente, batizei, que pensava em suicídio, que tirei da cadeia, que botei a cara pra defender, que chorou no meu ombro, que dormiu na minha casa fugindo de marido doido...me virou as costas.


O velho Pastor estava feliz: seu emprego não estava mais ameaçado.


Foi quando Deus me relembrou o famoso texto: Não dêem aos cães o que é santo , nem atirem pérola aos porcos (Mateus 7.6).


Eu pensava que era um texto só pra pessoas que não temiam a Ele.
Agora, quando percebo que por algum motivo não sou aceito, ou deixado de lado,recolho minhas pérolas: Tem muito porco em Igreja... parecem ovelhas, mas só de longe...e fora da grei, também.


Esse tem sido um ano sábático (de descanso)...apenas sentado no banco de igreja.
Recebi 60 mensagens novas, que venho colocando aqui...não entendo como gente que está a frente de Igreja parece ter secado a fonte- eu nunca repeti uma mensagem na vida, pelo contrário- se não me policiar, o assunto não se esgota, e pode ir da parte um até sei lá quantas...


Não prego em púlpito há um ano e meio, desde os 15 anos da Priscila (veja foto em generalidades- vá em fotos.)
Mudei de aparência...simboliza minha mudança interior, também.


Tem pastor que chegou na minha atual igreja há alguns meses, e que já desfrutam oportunidades que eu, há um ano lá,nunca tive.


Vc já deve saber o por que.


Meus colegas Pastores (jogo bola também com eles, são mais de 30 arrolados) nunca me convidaram pra pregar nem em congregação de morro, depois disso.


Vc também já sabe o por que.


Nunca na minha vida, pedi pra pregar, pedi Igreja, Pedi indicação como um monte de colegas faz: isso não é Cristianismo, é politicagem.


Assim, só me resta colocar o que vem do 'Chefe' por aqui.
E eu nem tenho a real idéia de quantas pessoas lêem - ou se lêem.


Só obedeço.


Enquanto isso, vou desfrutando de meu período sabático....uahhhh (se espreguiçando)...



Lee - com o coração novinho em folha, pagando o preço por não ser falso, apesar de a maioria ter preferido que eu continuase hipócrita - e morresse hipócrita,também.

Na sessão revival, é como se eu eu estivesse cantando pro Chefe "lanterna dos Afogados"- veja em vídeos do meu orkut