quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Contos Proibidos de Kunlun 1

(Série ficcional, com elementos que realmente aconteceram- toda quarta á noite)

Tomo I – O Descobrimento:
A Borboleta


Na fase final do pequeno Lee em solo alemão, ocorreu um fato que iria mudar a vida dele nos anos seguintes...


No principal mercado da cidade, num sábado, havia uma série de gincanas, no estacionamento, com vários tipos de jogos e promoções.


Numa delas, havia lançamento de dardos...ele foi o último a arremessar, e dos 3 dardos, dois ele cravou no alvo, e um, próximo a ele.
Ganhou um livro sobre animais, todo ilustrado, muito bonito, como prêmio:ficou todo feliz e orgulhoso.


O que ele não sabia, era que Muriú estava fazendo compras ali no mercado, e na saída, viu os arremessos daquele menino.
Ele era um Sino- Japonês, dos vários orientais que havia ali na Alemanha.
Veio dar os parabéns a criança, depois foi conversar com o pai do pequeno Lee...que a seguir anotou um endereço.


Na semana seguinte, Lee, aos 10 anos, iniciava aulas de natação com Muriú, num clube próximo daquele mercado:


- Prazer, sou Muriú, seu professor de natação.
Naquela primeira aula, ele foi levado direto ao fundo da piscina semi-olímpica, toda coberta e aquecida...”mas logo no fundo”?, pensou o menino, que via exatamente o 'quão fundo' era aquela parte...


Era só pra ficar batendo as pernas na borda...mas do lado fundo...segurando com as duas mãos numa das bordas.

Funcionando o movimento das pernas como aquecimento, Muriú começou a ensinar o movimento de virada de cabeça e respiração para seu aluno:
- "Não se preocupe com água entrando no ouvido...depois vc tira...lembre-se: a água será sempre sua aliada", disse Muriú.
- "Tá bom', respondeu o garoto.
Antes do final daquela aula 'não convencional' (que professor leva no primeiro dia logo pro fundo da piscina?), Muriú, agora na água, apóia o menino com uma das mãos, sobre o dorso, segurando ele, o professor, na borda com a outra mão:


-"Movimente seus braços, agora que vc já sabe bater as pernas", disse.
No final da aula, o menino já mergulhava direto (no fundo), e dava braçadas até se cansar e ir em direção á borda.


Muriú na verdade, estava desde o início testando o nível de medo do perigo e confiança que o pequeno Lee teria nele...mas parece que ele via aquela fé 'de criança' que Jesus se referia nos evangelhos, totalmente contrária ao racionalismo adulto: simplesmente acreditava, apesar do medo.


Taytoshi Gyang-Muriú sofria preconceito tanto no Japão, quanto na China, pela sua dupla nacionalidade...tinha 40 anos, e seu pai era japonês, e mãe chinesa: eles se conheceram na segunda invasão nipônica (entre 1937 a 1945) á China. Ele se sentia meio 'sem nação'.


Muriú lecionava num mosteiro de nome impronunciável para os ocidentais, por isso simplesmente vamos chamá-lo de Mosteiro de Kunlun, que é uma região montanhosa que se estende da China ao Tibete.


Sua família por parte de mãe se refugiara na Alemanha, por causa da revolução maoísta: assim, uma vez ao ano, ele os visitava por lá...nesse mês que passava, ganhava uns trocados dando aulas de natação.


Foi durante uma dessas visitas, que ouvindo um testemunho de um chinês também refugiado, que fora perseguido por ser cristão, que ele se converteu ao cristianismo, abandonando assim o Taoísmo.
Na volta ao mosteiro disse ao Abade que não poderia continuar ali, uma vez que agora era um cristão.


Para a surpreesa de Muriú, o Abade disse a ele que a partir do ano que iria começar, o conselho de monges, pela primeira vez em séculos, iria começar a permitir a entrada de alunos ocidentais: o mosteiro seria aberto a todos, de qualquer confissão religiosa.

Por isso, a nova “mentalidade” de Muriú seria fundamental, especialmente na integração com os alunos cristãos que poderiam chegar, em especial os do ocidente.
Por isso a abertura para os ocidentais.

Muriú viu naquilo tudo a mão de Deus...alegre, decidiu permanecer.

A mentalidade do Mosteiro passaria então agora a “formar guerreiros para a vida” e o alvo era identificar alunos com “espírito sobremodo excelente” á fim de que pudessem influenciar outras pessoas, e as ajudarem a “descobrir o sentido da vida”.


Três anos e meio depois:

Após 24 horas de vôo, e depois de pegar um ônibus para a cidade mais próxima, orientada por Muriú, Lee desce do ônibus, já fascinado...


A vida pra ele 'tava um saco' , e não pensou duas vezes em aceitar o convite, com uma certa relutância da mãe...o pai era fã de filmes de Kung Fu, e assinou a carta de recomendação enviada por Muriú para que estudasse em Kunlun.

A imagem que Lee olhava, era simplesmente fantástica...o nascedouro do rio Yangtzé, um pequeno campo verde, atrás do nascedouro e antes das montanhas, por onde passaria, era tudo lindo...

-” Seja bem vindo, Lee-san”, surpreendeu Muriú, agora outra vez mestre de Lee.
- Professor, que bom! , disse Lee abraçando-o.


Após abraçá-lo Muriú disse:

- A partir de hoje vc me chamará de Sensei (mestre, em japonês) ou de Shifu (mestre, em chinês) na frente de todos, hai?
-Hai, Sensei, disse o adolescente.


Assim, começaram a caminhar em direção as montanhas de Kunlun...


Assim que caminharam no nascedouro do rio Yangtzé, um dos dois maiores da China, Lee se lembrou que o início da jornada com Muriú começou justamente na água...


Com as botas molhadas, lembrou-se do primeiro conselho do mestre: fazer da água , e de qualquer força da natureza, aprenderia depois, uma aliada: pisava suavemente com as botas...


Já no campo por detrás do nascedouro, outra breve parada, para admirar a paisagem...

É quando pousa uma pequena borboleta, bem no ombro esquerdo dele...era linda...


Virando o rosto bem devagar para não espantá-la, ele pôde observá-la em 'close'...

O sol parecia fazer ela mudar de cor...ás vezes parecia azul, ás vezes meio roxa...


Muriú viu a cena, e disse que no Japão, as borboletas estão relacionadas as mulheres...e disse que um dia, Lee teria uma mulher tão bonita e delicada quanto aquela borboletinha...e que por pousar ao lado, no ombro, lhe seria uma grande companheira.


Mas disse também que a borboleta significa transformação, alma, libertação, e psiquê ( é um símbolo da psicologia).


Ou seja, a borboleta representava tudo aquilo que Lee iria ter naquela nova jornada, nas belas montanhas de Kunlun.


(Na próxima quarta: Tomo II – A Iniciação)


Lee, que encontou uma borboletinha ontem na entrada da portaria do prédio, pegou-a suavemente pelas asas, e a deixou no jardim do condomínio...
Hoje pela manhã, ela estava nas escadas de acesso ao meu primeiro andar...será que queria vir pra casa?