quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Contos Proibidos de Kunlun - 2


Contos Proibidos de Kunlun

(série fictícia, com um 'pouquinho de verdade'- toda quarta á noite)


Tomo II- A Subida para a Montanha


Na base das montanhas de Kunlun, havia uma aldeia, já acostumada a turistas, e boa parte de seus habitantes 'arranhavam' um inglês, sendo que os mais novos falavam com certa fluência até...

Isso é comum em países de fala difícil, como os asiáticos:Japão, China, etc...Lee se lembrou que na Grécia, onde passou parte da infância, até o pipoqueiro da esquina falava inglês...menos na França:

Eles odeiam falar inglês.

Era naquela aldeia que o mosteiro se abastecia: um caminhão subia e descia toda semana, levando carne, legumes, frutas e alguns outros utensílios para o mosteiro.

- “Nós vamos subir no caminhão, que vai levar mantimentos até o mosteiro, disse Muriú,” mas eles ainda estão aprontando...daqui a meia-hora, mesmo se ainda não tiver terminado, me espere aqui mesmo, e iremos subir”, disse.

- “Hai, Sensei, estarei aqui”, disse Lee.

Curioso, Lee foi dar uma “zapeada” na aldeia...
Foi quando ele viu um encantador de cobras...que tocando a sua flauta, fazia a serpente sair de dentro do cesto, e ficar longos minutos como que “em pé”, como se estivesse enfeitiçada”.
Ao término da apresentação, quando todos se afastaram, ele falou com Lee, num inglês macarrônico:

- “ Olá meu jovem, está aqui a turismo?”, perguntou.
- “Vim estudar aqui”, disse Lee.
- “Ah,então vc deve estar a caminho do mosteiro”, disse, “meu filho também estudou lá.”
-”Sério mesmo?”, perguntou Lee curioso.
-”Sim, há alguns anos...vamos tomar uma bebida e conversar”,convidou.
-”Ok, vamos”, aceitou Lee.

Bem ao lado havia um local que servia bebidas...mas em todo lugar do mundo, até no deserto, tem Coca-Cola...

-”Meu nome é Ad -Ramihr”, sou paquistanês, casado com uma tibetana”, disse ele, e continuou:
-”Sou aposentado pelo exército paquistanês desde jovem, devido á minha exposição a radiação no projeto da bomba atômica, e quando vim para essas bandas, acabei me apaixonando pela minha mulher”, disse ele sorrindo.

Aquela aldeia, na fronteira da China com o Tibet, era uma 'salada só' de pessoas de partes extremas do mundo, que encontraram, de alguma forma, paz por ali...a maioria ia visitar,e acabava ficando.

-”Muito prazer, Ramhir, me chamo Lee...o sr. disse que seu filho estudou no mosteiro, foi?”
- “Sim, ele estudou lá, e agora segue vida no ocidente, assim como o outro irmão dele”, disse...”tive 4 filhos, só ficaram aqui meus dois filhos mais novos, por quanto tempo mais eu não sei, disse sorrindo”.

Rahmir disse a Lee que tinha dois filhos mais novos, ainda na aldeia:
H'iq-Ahr, que estudava cítara (espécie de violão do oriente) e Krishna , uma bela adolescente que era alta em relação as demais da aldeia, “ e a mais bela de todas”, concluiu sorridente o orgulhoso pai.

“- Hum, fiquei curioso em conhecer a Krishna”, disse Lee sorrindo em português...
- “Desculpe, não entendi”, disse Rahmir sorrindo, querendo entender...
Lee precisava consertar, e mandou: -”Ah, o sr. fala com orgulho da Krishna...”

- “Ah, sim, ela também canta, e toca um pequeno pandeiro, instrumento milenar do antigo Egito”, me disse Rahmir.
-”Menina talentosa”, sorriu lee...”então, como pai de ex- aluno do mosteiro, o sr. teria algum conselho pra me dar?”, perguntou.

-”Sábia pergunta, filho”, disse Rahmir...”por isso te digo o que disse ao meu filho: faça as coisas com o coração: tudo o que vc fizer de coração, será bem feito”, disse Rahmir, olhando dentro dos olhos do adolescente.

-”Fazendo as coisas de coração, vc dará sempre o melhor de si...e isso vale para todas as áreas da vida, não só para mosteiro”,disse.

- “Fazendo as coisas de coração, vc amará todas as pessoas que Deus colocar em seu caminho”, continuou, “ame sempre as pessoas, sejam elas ricas ou humildes: ame-as como se vc as estivesse vendo pela última vez”.

Lee ficou olhando...pensando no segundo grande momento filosófico de sua chegada a um mundo desconhecido...
-”Lee-san, vamos”, chamou Muriú de dentro do caminhão, agora abastecido.
Lee se despediu de Rahmir com um aperto de mão, agradeceu o conselho, e foi para o velho caminhão correndo.

-”Vc vai atrás, com os mantimentos”, disse Muriú.
-”Hai”, disse Lee,achando que era mais um dos testes de Muriú...já estava acostumado...”deve ser algum teste de humildade”, pensou.

Antes, apresentou o motorista, também japonês, mais um dos que se refugiara naquela aldeia...tinha por volta de sessenta anos, e se chamavo Sato.

- “Ohaiô, watachi no namae uá Lee”,cumprimentou o jovem rapaz.
- Dozô Yorôxicu, Lee-san, mas pode falar em inglês comigo...estou mais habituado, por causa dos turistas- falo mais em japonês com Muriú, que vejo pouco, disse.

Ok, Let´s go”,respondeu o folgado Lee, sob um olhar fulminante de Muriú...
Sentado no meio de sacas de arroz, caixas de abóboras do oriente e um monte de mantimentos, Lee coloca a sua mochila ao seu lado.

E antes de saírem da aldeia, a última imagem que Lee vê é de Ad- Rahmir, em pé, dando adeus...ao que Lee retribui...

Ad-Rahmir aponta um dedo das mãos no turbante dele, como a dizer:
”Lembre-se...”
E a seguir coloca a outra no coração, batendo no peito....e balbucia:
Com o coração, com o coração...”

Era a última vez que Lee veria Ad-Rahmir...o câncer nos ossos, que ele lutava, estava em estágio avançado, e meses depois, ele partiu.

Ele jamais se esqueceria daquele conselho...e nem daquela cena.

Lee só soube disso mais tarde, quando após 3 meses, estava liberada a saída do mosteiro nos finais de semana...

E soube disso através da própia krishna, quando finalmente a conheceu...

Mas essa é uma história para mais adiante.

(Na próxima quarta- Chegando no Mosteiro)

Lee, procurando amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

(Na Sessão Revival, Legião Urbana – Pais e Filhos: veja em vídeos)