sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Contos Proibidos de Kunlun 4



Contos Proibidos de Kunlun

(Uma série fictícia, mas com mais verdades que vc possa imaginar)

Todas as quartas e sextas, á noite.

Tomo IV – O Retorno a Aldeia


Após 3 meses, finalmente os novatos receberam o direito de sair aos finais de semana do mosteiro.

Para a maioria dos que moravam a até 50 km do mesmo, era a oportunidade de visitarem suas famílias...para os que moravam mais distantes, e isso incluía os ocidentais, era a oportunidade de darem uma respirada além dos muros.

Isso incluía pequenos passeios as aldeias e cidades mais próximas, entregar cartas nos correios (na era pré-internet), e ir aos correios também incluía sacar dinheiro, pois era um banco-postal...era só apresentar carta de recomendação do mosteiro, que abriam conta na hora...Rwalla, o pequeno príncipe do Congo, voltava cheio da grana.

Enfim, era tudo de bom...a única obrigação era estar de volta na segunda, ás sete da manhã...Zháo, o chefe de disciplina, na maioria das vezes saía e só voltava no domingo á noite, para alívio geral.

Quem se atrasasse na volta, perdia o fim de semana seguinte.
Todos eram liberados depois do almoço de sexta, ao meio-dia...os alunos eram muito conceituados na região, e vários dos que moravam longe, eram abrigados por famílias da localidade.

Só não ia quem ficava “detido”: 3 advertências dos professores resultava em detenção de um dia, e o aluno era obrigado a ficar estudando pela manhã e á tarde na biblioteca, no fim de semana.

Assim que soube da saída, Lee pensou logo em voltar a aldeia e rever Ad-Rahmir, o sábio encantador de serpentes...ia dizer a ele como estava indo no mosteiro, e dizer que estava seguindo o conselho dele de fazer as coisas com o “coração”.

Orientados pelos alunos mais velhos, todos adquiriram bicicletas usadas a preços módicos...havia um pátio só para guardar as bicicletas no mosteiro.

Até hoje, são o principal meio de transporte da China.

Os alunos que se graduavam, vendiam suas bicicletas para os do 3º estágio, que assim geralmente ficavam com duas bicicletas e sempre vendiam uma...muitos já chegavam de bicicleta, no mosteiro.

Lee comprou uma bicicleta verde -esperança , que seria testemunha de inúmeras aventuras nos anos seguintes, muitas ao lado de Sven...ele jamais a trocou por nenhuma outra, durante aqueles anos.


Após cruzarem o portão em suas bikes:


- Cê vai pra onde, Lee? Perguntou Sven.
-Vou pruma aldeia aqui em baixo, ver se encontro uma pessoa que me aconselhou, disse Lee.
-E eu vou pruma cidade há umas 2 horas daqui, que eu vi quando cheguei de ônibus... se eu gostar, depois a gente vai lá.

-Falô, Sven...tchuss!
-Tchuss, devolveu ele, zarpando na bike, mais robusta que a de Lee.

Assim, Lee entrou a direita, para descer para a a aldeia, e Sven seguiu pelo caminho original que ele viera.

Descer é mais fácil, e em 20 minutos entrara na aldeia...foi direto em direção a praça central, para ver se localizava Ad-Rahmir em alguma apresentação.

Estacionou a bicicleta, colocou o cadeado de segredo (nº 667) e foi caminhando, até o local onde o encontrara anteriormente.
Não o localizou...perto dali, havia umas meninas escolhendo sementes do lado de fora do mercado, para comprar...todas eram muito pequenas, mesmo...

Devem ser as anãzinhas da vila”, pensou Lee, apesar delas serem um pouco maiores que anãs...entre elas, estava uma moreninha lindinha de cabelos pretos quase até os ombros...e sua cor, quase da cor do Toddynho....

-Olá, sou Lee, estou procurando uma pessoa...pode me ajudar?
Lee estava com roupas 'civis', e a grande maioria da aldeia estava acostumada aos turistas, e portanto, especialmente as mais novas, arranhavam inglês.

-Olá, sou Thiang-Nee, quem vc procura?
-Procuro por Ad-Rahmir, o encantador de serpentes...onde posso encontrá-lo?
A baixinha olhou Lee, pensando no que ia dizer...

-Bem, talvez seja melhor vc falar com a filha dele, Krishna...ela está chegando agora na praça, fazendo recreação com as crianças, disse Thiang, meio parecendo esconder algo.
- É fácil localizá-la, é a mais alta das meninas,disse.

-Bem, vou até lá, obrigado.
-Por nada, disse Thiang, do tamanho e cor do Toddynho.

Ao sair, ela e as outras baixinhas fuxicaram...duas da cor próximo a ela, e uma mais branquinha.
Antes de ir a praça, do lado mesmo em que estava, Lee avistou uma loja de souvernirs da aldeia, com um senhor e ao que parecia ser sua filha, ajudando a vender as lembranças de Kunlun.

-Num vai levar nada? Perguntou a moça, que auxiliava o pai.
-Acho que não... moro ali, no mosteiro, num sou turista, disse Lee sorrindo.
-Ah, vai fincar raízes em Kunlun é? Eu estudo enfermagem na cidade...serei enfermeira no futuro.

Kalaffiah tinha linhagem árabe...a vila era uma salada só de miscigenação.
- Tenho certeza de que será boa enfermeira...vc é atenciosa, seus pacientes irão gostar de vc.
Lee se despediu dela, e foi em direção a praça.

Chegando lá, rapidamente localizou Krishna... Thiang-Nee tinha razão, ela era alta;
Mas Ad-Rahmir, o pai dela, também tinha razão: geralmente pra todo pai sua filha é bonita, ainda que seja um jaburu...

Não era o caso dela...era mó gata, com muita presença; a altura só realçava a beleza dela.
Ele fazia recreação junto as crianças, e sem querer atrapalhar, mas já atrapalhando, Lee se aproximou dela.


-Olá, vc é a Krishna, filha de Ad-Rahmir?
Surpresa, ela pergunta: - de onde vc conheceu meu pai?
- No meu primeiro dia em Kunlun, antes de subir ao mosteiro, disse Lee, eu o vi na praça, conversei com ele, me deu conselhos...meu nome é Lee.
-Vem aqui, chamou ela para sentarem ao banco, enquanto as crianças continuavam, na frente deles, brincando.
-Meu pai partiu para a eternidade há 3 meses,Lee...e ele me falou de vc, que ia estudar no mosteiro, tal qual um de meus irmãos, disse.
-Eu sinto muito Krishna...não sabia.


-Está tudo bem, disse ela...sinto falta dele, mas sei que ele está num lugar melhor...a radiação dos anos do antigo serviço atingiram os ossos dele...
-Com certeza, ele está num lugar melhor que a gente, Krishna.

Naquela hora, o único irmão dela na aldeia, chegava com o que parecia ser sua namoradinha até a praça.

-Esse é meu irmão H'iq-Ar, e a namorada dele, Lay-Hshnáh.
Lee os cumprimentou, e soube que ela era de uma cidade há quase três horas dali, Makahlésh, e eles só se viam aos fins de semana....saíram a seguir.

Ele e Krishna conversaram durante longo tempo...aos poucos, foram rindo juntos, especialmente quando este disse que não sabia 'chegar' em garotas, e há muito tempo, por isso, não namorava.

- A maioria das meninas espera sempre que o homem tome a iniciativa, disse ela , é muito fácil...algumas dirão não, outras, sim.

- Então, no meu caso, é só Não!, disse rindo....ambos gargalharam juntos.
- Eu tinha que ter ido pro Chile, e não para Kunlun, disse, no Chile, na maior parte das regiões, é a mulher quem faz o pedido...eu realmente não tenho sorte, disse Lee, um tanto traumatizado.

- Primeiro vc tem que estabelecer contato, ir conversando, conquistando...igual estamos fazendo...
-Eu tento, mas quem eu quero não me quer, geralmente foi assim... aí sobram as malas, essas sim, super-insistentes, disse ele, sem reparar numa possível sugestão dela.

Foi quando uma amiga de Krishna passou e deu um tchauzinho a ela, do outro lado da praça...e falou com ela algo em chinês que parecia uma saudação diferente, mas que Lee não compreendeu...também era mais moreninha.

- Quem é ela? Perguntou Lee, encantado pelo charme da moça...
- Chama-se Pahat-Ny, é minha amiga...
- Que raio de nome diferente é esse? Sua amiga, é...hum....
- A família dela é toda de líderes politicos que compõem o conselho da aldeia...o pai, o tio...

- Bem, seguindo seus conselhos, eu deveria estabelecer contato com ela, como é que eu faço?
- Aqui temos um costume, disse Krishna...na parte de trás das casas, existe um muro onde as pessoas deixam recados...os recados ficam pregados nas paredes até chegarem os novos...mande um recado pra ela: se ela aceitar ou gostar, o recado permanecerá.

- E se num gostar?
-Ela tira o recado, mesmo que não tenha chegado um novo, ou ainda tiver espaço na parede...esse é o nosso costume.
-Então, eu vou lá na parede dela e colo um recado,isso?
- Isso...se ela deixar, é um bom sinal.
-Mas vc num poderia dar um 'toque nela'?
-Vou pensar no seu caso, disse, lacônica...só aí que Lee, num raro momento de percepção dentro dessa área, perguntou:

- Por acaso, vc gostou de mim, Krish ?

Krishna ficou nervosa...mas ao mesmo tempo feliz pelo reconhecimento, ainda que tardio.
Ela tinha os olhos castanhos, uma voz doce e suave, sorriso e dentes bonitos: deu até vontade de Lee dar um 'peteleco' neles,como gostava de fazer...

- Tenho outras prioridades, Lee...bem preciso ir....
- Ainda é cedo, disse Lee...e vc tá com medo, insistiu o novato do mosteiro...
- Pelo que me consta, quem tem medo aqui é vc, disse ela, encerrando o assunto, e indo atrás das crianças...bye!

Lee se despediu...quando se aproximou uma velha senhora dele.
-Olá, sou Vehnnin-Ha,tia de Krishna...estive observando vcs...
-Ah, prazer, sou Lee, sua sobrinha é um doce de pessoa.
-E está solteira, também, disse ela...

Será que em todo lugar do mundo tem uma tia tentando arrumar casório pra sobrinha??

-Ela não deve ter dito, á vc mas hoje é aniversário dela....
-Sério? Bem...então devo mandar um recado pra ela, certo? Onde é a casa dela?
-Aquela ali, mostrou ela.
-Errr...e da Pahat-Ny, ela se 'esqueceu' de me mostrar...
-Aquela outra ali , mais adiante, apontou.

-Obrigado, agradeceu Lee, caminhando rápido até as casas de cada uma, e achando o tal muro de recados.

Lee sempre andou com bloquinhos e caderno de anotações, para anotar suas impressões...Para Krish, desenhou um bolo, e escreveu parabéns, bem grande.

Para Pahat-Ny, também pregou uma mensagem no muro dela.

A seguir, pegou sua bike e desceu em direção aos correios, lá aos pés da montanha, sempre com a mochila as costas...havia encomenda pra ele: fitas cassete com músicas do Brasil, fotos, abriu uma conta no banco postal, etc....demorou mais de uma hora, entre ir e voltar.

Na subida, quase ao fim do dia, resolveu entrar na aldeia, e ir de bicicleta até o muro de recados da casa de cada uma para as quais havia enviado os recados, curioso.

Nenhum recado dele havia permanecido nos muros...

Triste, subiu o restante do caminho até onde deu, de bike, depois, empurrando-a.

Acho que a Krish não digeriu bem a história da Pahat”, pensou...o karma nessa área insistia em permanecer.

Após a janta recolheu-se ao quarto...Sven e os outros ocidentais também já haviam voltado.

Lee conversou com Sven, contando tudo o que havia acontecido...o amigo não deixou que esse ficasse deprê, e chamou Sam , que dividia o quarto com Samir, que não voltaria até segunda, e Kwalla, também sozinho, pelo mesmo motivo.

Botou o toca fitas com as músicas bem alto para que todos dançassem.

Assim que começou a música, Kwalla se amarrou no balanço, e dançava... Sam, também animado, perguntou:

-Sobre o que ele está cantando?
- Sobre uma menina que ensinou muitas coisas a um cara, disse Lee, irônico.

E assim, os noviços de Kunlun terminaram a noite, dançando e pulando...Lee queria ficar na dele, mas eles não deixaram: nada de deprê...e o arrastaram para a dança.

As estrelas juntas, mais uma vez brilharam, afastando a escuridão.

(Na Sessão Revival, veja a música que todos eles dançaram: vá em vídeos!)