sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Contos Proibidos de Kunlun 6



Contos Proibidos de Kunlun

Série fictícia, com muitas coisas que realmente aconteceram...hoje, por exemplo, infelizmente, a parte triste aconteceu.

Toda quarta e sextas-feiras.

Tomo VI- Susie

Haviam duas maneiras de se receber cartas em Kunlun: vc podia receber direto no mosteiro, ou então na agência de correios, lá embaixo: era mais seguro, pois houve uma fase em que nego se queixava de 'sumiço' de cartas....

Mas a primeira carta que receberia de Susie, a recebi no mosteiro mesmo...posteriormente, a orientei para mandar via caixa postal.

Flashback, Grécia, 7 anos antes, numa fila de cinema:

-Pai, tem brasileiro nessa fila...eu juro que ouvi gente falando em português!
-Vai dar uma olhada.
Fui, e mais adiante, tinha uma menina junto com sua mãe e irmã na fila, falando em português.

-Oi, eu também sou brasileiro!!
-Ah, nós somos portugueses, então somos co-irmãos! Como vai? Me recebeu Antônia, mãe de Susie.

Foi a primeira vez que vi Susana, moreninha clara de cabelos pretos...o pai dela era sócio de uma mega-empresa em Portugal, e tinha filial em Atenas.

- Oi, sou Lee!
- Me chamo Susana, mas pode me chamar de Susie, disse ela.
Nos olhamos, rimos e assistimos, as duas famílias, o filme juntos. Teria início ali uma amizade a ponto de irmos a Portugal, na casa deles.

Eles moravam seis meses lá, seis meses na Grécia...e pela primeira vez na vida, teria uma namoradinha.

Kunlun, 7 anos depois:

-Sven! Vou receber uma visita! Ela num vai poder entrar aqui, disse ao meu grande amigo e colega de quarto alemão.

Susie sempre foi meio doidinha, fora do comum (adoro mulheres assim), desde pequena...ir tão longe, mochileira, só pra me ver?

Naquela época, já era comum jovens mochileros ao redor do mundo...mas jovens mochileiros 'teens', ainda era raro- e ela viria sozinha!

-Bem, vc vai ter que passear com ela fora daqui, claro....lugar bonito é o que num falta, disse Sven.
- Ela vai chegar em Kunlun no ônibus do início da tarde, ás 13.30h...nem vou almoçar hoje aqui, pra rangar com ela...e vc, pra onde vai nesse fim de semana?

-Semana passada conheci uma cidadezinha a oeste daqui...hoje vou no sentido contrário, estou mapeando, disse ele...quando descobrir “qual é a boa”,a gente vai junto.
-Já é, disse a ele...e tome cuidado, num vai ficar nessas hospedarias “cabeça de porco” não, são perigosas,disse a ele.

-Esquenta não, sou aluno de Kunlun, qualquer coisa, enfio a porrada, disse ele.
-kkkk, rimos juntos, e nos despedimos...a sexta -feira era curta: só estava livre pra gente a partir da tarde.

Chego na estação ás 13h, e estaciono minha bike verde-esperança, num estacionamento de bikes, colocando o cadeado de segredo (nº 667) também verde.

Na pequena estação rodoviária, havia uma grande movimentação no início e fim de semana, das pessoas que estudavam e trabalhavam fora da área de Kunlun.
Foi assim que vi Kalaffiah chegar, de branco, da cidade onde ela estudava enfermagem, algo tipo um curso técnico.

-Oi, tudo bem com vc? Vai descer pra cidade? Perguntou ela, num belo contraste moreno- árabe com a roupa branca que usava.
- Oi! Não, eu to esperando uma amiga...tudo bem?

-Tudo...é alguma amiga da aldeia? Perguntou ela, num tom curioso-ciumento.
-Ah não, é uma amiga de infância, ela chega daqui a pouco.
-Ah tá, disse ela com um semblante um pouco mais aliviado...bem, apareça por lá na aldeia, quando der...bye!

Ainda estava chateado por ter sido ignorado pela Pahat, e pela própia Krishna....arrancadoras de mensagens!

- Podexá, vou aparecer sim (no dia de São nunca, pensei)...bye!

Susie vem descendo as escadas do ônibus...tava muito lindinha...crescera, e ficou a cara da Sandy!

- Leeeee, desce ela correndo, e pouco antes de me abraçar com força, joga a mochila no chão...um longo abraço de saudade...pude sentir o perfuminho gostoso que ela tava usando...

-Que saudades de vc, querido, diz ela me olhando, e a seguir, num impulso, me taca um beijo na boca!

Fazia pouco tempo que eu tinha dado um beijo na boca...só uns 4 anos, mais ou menos.

-Vc cresceu, tá forte, de cabelo comprido...tá um gatinho, disse ela.
-E vc deve ter esquecido seu óculos no avião, né? Fala sério! Ainda usa óculos?

-Ah, é só pra longe...puxa, como é bom te rever...tava te sacando da janela do ônibus!
-Sei...em caso de feiúra explícita, vc se abaixaria, e ia embora nele mermo, certo?
-É isso aí! kkkkkkkkk, gargalhamos juntos.

-Eu to com fooome, disse ela manhosamente.
-Somos dois...te esperei pra gente almoçar juntos...
-huum, disse ela sorrindo...virou um monge-cavalheiro, é?


-Bem, pra falar a verdade, se vc fosse só uma amiguinha, já tinha almoçado no mosteiro...ou comido um legítimo pastel da China aqui na rodoviária!


-Ai, to me sentindo importante...disse ela, rindo.
-Me dá sua mochila, disse, colocando ela agora nas minhas costas...mochila cor-de-rosa, Susie??
-Num é uma gracinha?
-Vc que é uma gracinha, disse, dando eu um beijo nela, dessa vez.


Entramos no pequeno restaurante anexo a rodoviária...feito mais pensando nos turistas, que subiam com frequência nos fins de semana: simpleszinho, mas bonitinho.
Susie se senta de um lado, e eu me sento de outro, colocando a mochila ao meu lado.


- Vai ficar longe de mim, depois de tanto tempo?
- Mé kié?
Ela se levanta, e vem para o meu lado, e eu a ajudo a jogar a pesada mochila pra onde ela estava.

-Namorados sentam juntos, sabia?
A Krishna se esqueceu de me ensinar esse detalhe, pensei.

-Seus pais deixaram vc vir até aqui mesmo?
-Ia chegar uma hora em que iríamos viajar sozinhas (ela e as irmãs,que são mais velhas) e resolvi fazer minha estréia em alto estilo: na China, atrás de vc!

-E o que eles acharam?
-A preocupação é tão somente com a viagem, eles adoram vc e sua família, Lee!
Fiquei meio sem graça....enquanto pedimos um yakisoba, Susie vai até o telefone público ligar pros pais...houve uma época, pré-celular e internet, que telefones públicos eram tudo!

-Mas não vim aqui só por isso, diz ela na volta.
-E por que vc veio?
-Quero que a gente firme como namorados...em suas férias vc vem me ver, e eu em seguida, sempre revezando.
Susie tinha ficado decidida.

-Por mim tudo bem...mas vc vir aqui sempre num é caro não?
-Bem, Lee, minha família tem condições, isso num é problema...e aqui é tão...exótico! E é onde vc tá!

Susie passaria hospedada no Hotel zero estrela que tinha na região...pelo menos num era cabeça de porco.

Botamos toda a conversa em dia, e era muita conversa...Susie tava lindinha de jaqueta jeans...era muito pouco tempo, um fim de semana, pra vários anos que passamos distantes, e agora, para minha surpresa, namorados de verdade.
-Lembra daquele seu barco azul de brinquedo que vc me deu, quando se mudaram pra Alemanha? Eu tenho até hoje no meu quarto.
-Puxa, a gente brincava com ele naquela praia que a gente ia, mé ki era mesmo o nome?
-Glifada...rsss...a gente ia muito a praia juntos..ah, o ursinho que vc me deu, ainda tá comigo, também!

-Foi de niver,isso?
-De Natal, esquecidinho...o último Natal que vcs passaram lá.

Passeamos, pois ela alugou uma bicicleta verde-esperança como a minha, namoramos na frente do nascedouro do Rio, tiramos fotos, rimos, ensinei a ela auto-defesa (aprendeu rápido- me deu um chute no saco-ufff!)...

Ela me trouxe uma caixa cheia de chiclete Adams, o meu favorito, me mostrou as fotos da família, passamos na frente do mosteiro, onde ela tirou uma foto minha...

-Fica com essa foto aqui, esse sou eu e Sven, meu colega de quarto...ele é alemão.
-Que coincidência, vc pode continuar falando alemão...vou mostrar pras minhas amigas....hum, loiro de olhos azuis? Com certeza, alguma vai querer voltar aqui comigo...rsss

-Gostou dele,é? Me dá essa foto aqui de volta, disse, esticando a mão.
-Ciumentooooooo!!....kkkkkkkk....ela escondeu a foto.

Eu nunca mais tinha sentido ciúmes...ciúmes, realmente, a gente só sente de quem gosta.

-Lee, aprenda uma coisa: quando vc ama alguém, pode aparecer o 007 (que nem me lembro na época quem era) que vc até admira, mas não troca pelo seu amor.

Essa foi outra coisa que a Krishna também não me ensinou, pensei...

O Tempo passa rápido para boas coisas...e chega a hora em que Susie tem que partir...confesso que bateu mó vontade de ir com ela.

-Esquenta não, nada de tristeza: nas férias, tá mais perto de vc vir me ver, do que ir pra casa...vai depois, mas tem que passar primeiro lá!
Eu num tinha a menor dúvida disso...era o que iria fazer.

Susie foi a última a entrar no ônibus...ficou ao meu lado até o último momento...
Sentou-se próximo ao último banco, e quando o busão saía e fazia a curva, acenamos um pro outro...eu chorei, ainda bem que ela num viu...mas na carta que receberia dela depois, ela disse que chorou pacas.

Cartas...na época pré- email, elas eram mais importantes...toda semana descia pra pegar uma cartinha da Susie, nos correios...geralmente eram cor-de-rosa, que ela adorava, e perfumadas...mandava fotos...num tinha orkut na época...

Eu escrevia calhamaços, contando sobre a vida em kunlun, Muriú e seus ensinamentos marciais e filosóficos, minhas saídas com Sven (agora, ela que ficava com ciúme), conhecendo aldeias e pequenas cidades da área, e também mandava fotos...

Numa certa semana, numa sexta, não veio carta da Susie...ela pedia pro pai, e os empregados da empresa dele colocavam a carta na segunda, pra no máximo, sexta-feira chegar em Kunlun, sempre escrito “urgente”...devia chegar mais rápido.

Subi triste o caminho do mosteiro...de novo.

Achei estranho...em nenhuma delas que havia recebido até então, vi sinais ou indícios de esfriamento, ou a possibilidade de um portuguesinho ou greguinho qualquer ter tomado minha Susie (eles continuavam no vai e vem Lisboa- Atenas de carro).

Sven já tinha saído com a bike dele, nem deu pra desabafar...tava angustiado.

Mosteiro vazio, entrei no salão, peguei as adagas e arremessei ao alvo.

Acertei uma, errei duas...inda bem que Muriú num estava perto...depois fui pro Mudjong (imagine uma espécie de cabideiro- rotativo, pra treinar agilidade dos socos e defesa)...treinei até cansar, que era o que queria.

Jantei, chuveirada, e cama mais cedo que o habitual, me cobrindo com lençol do vento frio.

No dia seguinte, sábado já anoitecendo, mosteiro quase vazio...e recebo uma ligação de urgência...um monge veio me chamar.

Pela experiência que tínhamos, receber ligações assim não era boa coisa, quase sempre...

- Tá bom, mãe...eu vou ficar bem, disse, as lágrimas já escorrendo...sim, ora mesmo...tchau.
Dispensei a ajuda do Monge...Muriú também num tava lá, e eu mal conhecia aquele Monge.

A família de Susie tinha um daqueles carros tipo Mini (igual o do Mr Bean), e diversas vezes, fizeram a rota Lisboa- Atenas, sem problemas.

O pai de Susie havia ficado, e iria de avião, uns três dias depois, por causa dos negócios, tinha que assinar um contrato. Susie ia pro ano letivo da escola americana, a mesma onde estudei- ela ficava o segundo semestre por lá.

Antônia,mãe dela dirigia bem... mas já na cidade, o carro bateu de frente com outro, numa rua onde não podia haver ultrapassagens...foram pegas de surpresa.

Ela e Susie, que estavam na frente, morreram na hora.

Eu e Susie tivemos um amor de criança, depois um amor juvenil...eu nunca mais amei ninguém como a amei:
Tive uma namoradinha que me fez mal depois, e mais tarde, acabei me casando, no vácuo, com alguém que me fez mais mal ainda, até me separar- culpa minha, que casei sem amor, vendo os sinais ao contrário, etc.
Naquele dia, subi as escadas para os quartos, ciente que o karma ainda permanecia...quando eu iria derrotá-lo?

Não teria mais Susie...Não veria mais aquele sorriso...aquele jeitinho dela.

Anos mais tarde, quando vi a dupla Sandy e Jr, me recusava a ver e ouví-los.
Susie era a cara da Sandy, só um pouco mais moreninha, pois gostava de praia;

E ouvir Não ter, fazia com que despencasse a chorar, em locais inconvenientes como lojas e supermercados, por exemplo: parecia Susie cantando pra mim...

Em Kunlun, passávamos muitas noites solitárias...

Naquele dia, passei a mais longa delas.

(Na Sessão Revival: Não Ter...; (