sexta-feira, 24 de abril de 2009

Contos Proibidos de Kunlun 10 - A Escolha do Novo Abade


Contos Proibidos de Kunlun:

Tomo X - A Escolha do Novo Abade

Hoje é um dia especial na vida do Mosteiro: Um novo Abade seria escolhido.

É uma cerimônia rara, em que poucos alunos tiveram a oportunidade de presenciar:

Um Abade lidera o mosteiro, em média, por mais de 20 anos, pega umas 5 gerações de monges, mais ou menos.

O Abade em questão,que passaria o cajado, tinha um nome impronunciável, que nunca aprendemos...na verdade, todos só o chamavam de” o Abade cego”.

Ele já estava cego (ficara cego com um acidente com as antigas tochas do templo, antes da eletricidade ser aceita no mosteiro: a querosene queimou as retinas dele, quando tinha por volta de 50 anos), mas aos 85 anos, e ainda forte, sentiu que era a hora de passar o cajado...

O Abade cego, se quisesse, poderia seguir na liderança até a morte...mas hoje, me lembrando um pouco de coisas que vi, descobri que ele enxergava mais que todos nós...

Era muito sábio, todos tinham acesso a ele, se quisessem...sofria muito nos casos difíceis, como na expulsão que houve...aconselhava quem queria desistir, etc.

E era um excelente lutador, até na velhice...

Muriú, meu mestre, disse que certa vez, numa rara saída que este fez fora do mosteiro, já idoso, ele foi atacado por salteadores, isso já com 80 anos...ele saiu sem avisar nenhum monge,que poderia fazer a segurança dele.

Assim, quando dois bandidos lhe cercaram, ele já perguntava:

- “Por que vocês estão nervosos? O que querem?”

-“Passa a grana velho, agora”,anunciou um dos bandidos.

-“ Você quer roubar dinheiro de um velho cego? Então venha pegar”, disse o Abade, esticando com uma das mãos o saco de pano contendo as moedas.

Quando um dos bandidos foi tomar as moedas, o Abade deixou cair o saco de pano no chão, bem á frente dele: - “Ohh, me desculpe!, disse.

Quando o vagabundo se abaixou para pegar, xingando, tomou um chute na cara com tanta força, que voôu o melado (sangue)...quebrou o nariz na hora, e ficou urrando de dor,no chão.

O outro bandido, ao ver a cena, xingou, e puxou uma adaga, pra matar o velho Abade cego...não teve coragem de encarar um velho oitentão, cego, só na mão.

O velho monge, que se abaixara para pegar com exatidão onde o saco de moedas havia caído, arremessou o mesmo bem na testa do bandido, na direção de uma das veias que faz a passagem do oxigênio para o cérebro...

Foi um impacto muito maior que de um soco, já que as moedas da antiga China eram bem maiores que as nossas moedas de um real, por exemplo.

O cara caiu duro na hora, e o Velho Abade pegou a adaga deste que lhe iria atacar, enquanto o bandido com nariz quebrado, assustado, correu para fugir.

O Abade cego, calculando a distância do vento, e ouvindo o barulho das pisadas, arremessou a adaga, exatamente no meio das costas do bandido, que caiu.

Nínguem sabe onde foram parar os corpos...ninguém soube de nada, ninguém viu.

Depois que Muriú me contou essa história, entendi uma das melhores mensagens que ouvi do Velho Abade:

Não podemos eliminar o mal que nos cerceia, mas podemos eliminá-lo de nossas vidas, assim que chegarem em nós- se formos condescendentes com ele, esse mal nos visitára sempre, até acabar conosco”.

Ele realmente levava isso muito a sério!

Antes da cerimônia de escolha do novo Abade, inédita para nós, fui dar um barrigada no banheiro coletivo do meu andar.

O que era legal em Kunlun, era que até no banheiro havia mensagens filosóficas...

Atrás da porta do banheiro, por exemplo, encontrei uma muito inspiradora, muito apropiada para o momento, que me ajudou bastante naquela ocasião:

Neste lugar sagrado, toda vaidade se acaba... o mais covarde se esforça, e o mais valente se caga”.

Após esse grande momento de inspiração filosófica, finalmente fui em direção ao grande pavilhão, onde se iniciaria uma nova era em Kunlun.

Os alunos estavam todos sentados...em Kunlun, ou você ficava ajoelhado, ou sentado com as pernas flexionadas para dentro, igual como o pessoal da Ioga.

Os monges professores, entre eles Muriú, podiam se sentar normalmente,na área reservada para eles, com bancos simples.

Assim, tem início a cerimônia de escolha do novo Abade...

O conselho do mosteiro apontou 3 candidatos, mas quem decidiria quem era escolhido dos três, era o velho Abade cego.

Assim, os 3 candidatos (todos de cinza, a cor da humildade) sentaram-se um ao lado do outro, bem de frente para nós, os alunos, e ao lado, para os professores.

O Velho Monge cego estava vestido de púrpura (a cor da realeza) e todos os demais, professores e alunos, estavam de vermelho (a cor do sacrifício) com laranja ( a cor da unção espiritual), como sempre usávamos.

Nunca ninguém vestia preto no mosteiro: o preto é a cor das trevas, do pecado.

Por isso, até hoje, num me sinto bem vestindo preto na grei...como diz o velho ditado, “o hábito(como também era chamado as roupas clericais) faz o monge”.

A seguir, um monge traz uma pequena mesa, e outro, traz consigo um vaso, e o coloca em cima da mesa.

Era um vaso muito bonito, e devia estar no escritório particular do velho Abade.

O velho monge cego se aproxima e diz, diante de todos:

- “Esse é um vaso da dinastia Ming... Mas esse vaso me é um problema:

O novo Abade do mosteiro será quem resolver esse problema para mim”.

Perguntei para Sven, meu amigo alemão, um dos raros ocidentais junto comigo, ali: - Que problema será esse?

- “Vai ver que tá faltando dar uma lustrada nele, disse, debochado que era.

O primeiro candidato (todos tinham por volta de 50 anos), foi chamado a tentar ver qual era o problema...

Ainda moleque, eu num tinha a menor idéia de que aquele vaso valia muito...há 3 anos atrás, pagaram 8 milhões de euros, num leilão, por um vaso Ming.

Após tatear todo o vaso, ver cada desenho, o primeiro candidato respondeu:

-“Não sei qual é o problema Abade”,curvando sua cabeça, e recolocando o vaso em cima da pequena mesa.

-“Obrigado”, agradeceu o velho Abade cego, chamando desta vez o segundo candidato.

Este olhou novamente, fazendo tudo o que o anterior havia feito, mas dessa vez, colocou a mão por dentro do vaso, á fim de ver se havia nele alguma ranhura.

Nada...verificou por baixo, também, nada encontrando...desistiu:

-“Não sei onde está o problema, Abade”, e se sentou.

-“Obrigado”, agradeceu novamente o Abade...só restava o último candidato.

-"Sven, aquele ali num é aquele monge professor que flagrou o Chao com aquele monge corrupto no esquema de provas?, perguntei”.

Meu amigo alemão ajeitou os óculos (ele lembrava muito esse moleque, o Harry Potter), franzindo a testa...

- “É ele mesmo”, me respondeu.

Assim, o último candidato, se levanta, e vai em direção ao valioso vaso.

Assim que ele toma o vaso pelas mãos, ele levanta o máximo que pode, acima da cabeça dele...e arremessa o vaso com toda força ao chão:

Kaploft! Foi pedaço do vaso pra tudo que é canto...

- “”Ohhhhh”, se chocam todos no mosteiro...

- “Putz”, disse eu...Sven, com as mão na cabeça, disse :“que merda””, em alemão...

-"Será que alguém tem superbonder aqui”? , perguntei...

-“O cara quer ser o novo Abade? Ele vai é ser expulso”!, disse Sven.

Todos se voltaram para o velho Abade cego...curiosamente, este estava sorrindo, parecia feliz.

O Abade perguntou ao terceiro candidato:

- “Por que você quebrou o vaso?”

- O Abade nos disse que esse vaso lhe era um problema..bem, agora não há mais problema, disse ele.

- Isso mesmo, pois o problema foi resolvido..você o resolveu, e será o novo Abade...palmas para o novo Abade! , disse o agora veterano monge.

Confesso que não entendi lhufas, mas estava lá, aplaudindo, tudo era festa.

Eu só fui entender mais tarde, na hora da janta, quando encontrei Muriú na saída do refeitório, e perguntei a ele, após o mesmo me falar que se tratava de um vaso valiosíssimo:

- “ Anos atrás, o velho Abade ganhou de presente esse vaso, de uma autoridade chinesa muito rica, como se estivesse pagando uma promessa...

-“Esse vaso sempre foi um peso para o Abade, continuou, pois nada tinha a ver com a simplicidade do mosteiro...ele representava uma vaidade que não combinava conosco, disse Muriú.

-"Mas por que não venderam, pra arrecadar fundos para o mosteiro,” Perguntei.

-"A autoridade que deu o vaso iria saber, e ficaria decepcionado com o Abade...entende por que isso sempre foi um problema na vida dele?”

Na verdade, só fui entender anos depois, quando me desmaterializei das coisas materiais...a semente foi plantada naquele dia.

Assim, com um novo Abade, voltamos para nosso quartos, após a janta.

Sven, que recebia kits de aviões da Revell para montar, examinava um de seus modelos favoritos...um Mustang, avião da segunda guerra, mas estava chateado:

A hélice, que ficava bem á frente do aparelho, não estava girando, como a dos outros aviões que ele tinha...

-“ Num sei por que num tá girando...será que pegou um pouco de cola aqui?”, perguntou.

- “Chovê”, disse a ele, pegando o avião.

A seguir, levantei o Mustang com a mão, e o arremessei direto na parede, espatifando o avião...foi pedaço pra tudo que é lado.

-“Pronto, Sven: Resolvi o problema, disse ao meu colega de quarto, sorrindo.

A cena seguinte?

Eu descendo correndo as escadarias, com Sven tentando me alcançar, dizendo:
- Volta aqui, seu filho da puta!

É...e eu que pensei que ele tinha se espiritualizado com a lição do dia!

Lee, Tijuca, RJ.