quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Lição no Elevador parado


Ver o resgate dramático da mulher que ficou presa numa enxurrada nos faz pensar...

Pessoas desconhecidas literalmente se jogaram para tentar salvá-la.

Gisele tinha acabado de sacar a parcela do seguro desemprego e vinha com sua moto para casa.

Foi surpreendida pela enxurrada e acabou parando embaixo de um automóvel.

No desespero, e se lembrando do filho pequeno, que já tinha perdido o pai, após fracassada tentativa de resgate anterior com a corda, ela foi parar embaixo do carro, mas reuniu as últimas forças para levantar o braço indicando sua posição:

Isso após dois minutos embaixo dágua, sem ninguém mais saber onde ela estava.

Gisele perdeu os 600 reais do seguro, e sua moto, que ainda faltava uma parcela para ser quitada.

Mas sua coragem em não desistir, e a coragem de desconhecidos, que se jogaram na enxurrada, salvaram sua vida.

Você se jogaria na água, pra tentar salvar alguém?

Tentaria tirar uma pessoa ferida do carro, após o acidente, antes de pegar fogo?
Se jogaria em cima de alguém, uma criança, mãe grávida, na hora do tiroteio?
Não é bancar o herói...e sim, por instinto, por uma lógica dedutiva em frações de minuto (em instantes, o fogo vai tomar o carro , ou o carro vai afundar, o fogo vai tomar todo o apartamento, etc);
Pelo amor sacrificial (ágape), em que, no mínimo, já tomou parter de seu tempo, alterou sua rota, o que iria fazer, etc, e no “máximo”, pode tomar sua vida...

Não é bancar o herói, pois vc corre riscos – aqueles rapazes corriam risco de morrer, tentando salvá-la – quem quer aparecer, quer ter a certeza de contar a história depois.

A minha aula de amor sacrificial não foi num seminário, não foi na igreja, não veio através de um sermão, nem lendo as histórias dos meus heróis favoritos nos gibis.

Essa aula eu tive com meu pai, ainda pequeno, em local inusitado, e distante:

Num elevador de hotel na Grécia, aos sete anos de idade.

O elevador parou entre os andares, e após muito tempo, abriram a porta de um dos andares de cima, e avisaram que teríamos que “escalar” até sair dali.

Mas antes deles aparecerem, eu tive minha aula com meu pai...ele perguntou:

- Se só pudessem retirar um de nós, e a seguir o elevador caísse, quem vc escolheria pra tirar?

- Você pai, disse eu no meu amor de filho pra pai.

- Errado...eu vivi muito mais tempo que vc (ele tinha perto de 50 anos), o escolhido seria você.
Fiquei com aquilo na cabeça, enquanto ele me levantava pro bombeiro me pegar no andar de cima...e não fiquei com trauma de elevador “parado”.

Meses mais tarde, fui aprontar para minha mãe: tranquei ela na varanda do apartamento, enquanto esta arrumava o vaso com planta.
Só que me esqueci, e desci para brincar...quem abria a porta era ela.

Uma vizinha foi atrás de mim, alertada por minha mãe, quando estava na varanda ao lado dela.
Subi até o apê da vizinha, e liguei por meu pai (quem me passou o número foi minha mãe, da varanda), pra ele vir com a chave.

Assim que ele chegou e viu a cena da varanda da vizinha, ele meteu a mão no bolso e viu que tinha esquecido as chaves de casa no trabalho!

A varanda era exatamente ao lado da varanda da vizinha, e ele não pensou duas vezes:
Por frestas que só cabiam as pontas dos pés, e as pontas dos dedos, foi pela parede até a varanda ao lado...era só no primeiro andar, mas se caísse, quebraria o tornozelo ou a perna.

Quebrou a janela de vidro da porta de acesso a varanda, com o cotovelo, e abriu a porta.
Mas até hoje tenho a mania de trancar os outros:

Volta e meia tranco o pessoal da faxina, ou o zelador, quando vão buscar as coisas aqui no prédio, e esquecem as chaves de fora...eles já ficam ligados comigo.

Ou seja, aprendi por aula teórica e prática, desde cedo, sobre ajudar os outros.

Já socorri gente em acidente de carro;

Socorri gente no meio da rua;

Ajudei a desembarcar e conduzir passageiros na composição do metrô que parou no meio do túnel, caminhando até a estação mais próxima- os trilhos ainda estavam energizados;

Me joguei em cima de uma mulher no tiroteio, por reflexo;
Diversos tiroteios da faculdade em que estudava (tinha um morro atrás), ajudei alunos a se acalmarem, inclusive levando pra ponto de ônibus;

Salvei duas vezes gente que se afogava, na praia;
Numa rebelião na cadeia, eu e um colega agente fomos atrás de uma cortina de fumaça, sem ver nada, pra ver se haviam agentes reféns...

Percorremos a cadeia toda, só nós dois, uma correria, fogo pra tudo que é lado...

Só ele estava armado...geral correu de medo, inclusive um monte de gente que se dizia valentão.

Tudo isso, graças a lição que foi aprendida aos sete anos de idade, dentro de um elevador parado.
Lee

Na Sessão Revival, 2 vídeos:


Reportagem da enxurrada:

Na vida, não há placas de trânsito...assim, vários momentos nos surpreendem: