sábado, 2 de janeiro de 2010

Minhas Piores Passagens de Ano


Ahh, eu passei muitas passagens de ano ruins...

Mas as piores, foram na igreja.

Uma, eu devia ter uns 13 anos...meu pai ainda estava vivo (eu tinha 15 quando ele partiu).

O pastor cismou de, acredite, fazer uma assembléia extraordinária na igreja em plena noite do dia 31.

Os Batistas decidem tudo o que acontece na igreja em assembléias, tipo as que tem em condomínios.

E aquela foi das brabas:

Tinha um grupo querendo botar ele pra fora, e ele resolveu fazer um “caça as bruxas” em plena passagem de ano!

Deu meia-noite...uma da manhã...e a tal da sessão pegando fogo:

Acusações, bate-boca, disse me disse, um fuzuê infernal...

Acho que foi a noite de ano em igreja das que o diabo mais gostou de ver na terra:

Sem dar trabalho nenhum pra ele, que não precisou fazer nada, já que foi iniciado por homens, e no caso, pelo próprio pastor.


Era um tal de gente levantar e ir embora...a igreja cheia, ficou apenas com umas 20 pessoas querendo sair no pau, e outras assistindo aquele circo...

Entre elas eu, já que meu pai acompanhou aquilo...

Eu olhava pela janela, e via e ouvia o barulho de fogos, doido pra sair e ver, quando deu meia-noite...

Ali, ainda novinho, comecei a perceber que esse negócio de passar o ano novo na grei num era bom negócio pra mim.


Eu comecei a reparar que a programação era massiva, variando entre o chato ao insuportável...cansativa, pois na época começava ás 21 horas...

Comecei a reparar no contraste em que via as pessoas na rua, saindo de casa para passar o ano na casa de amigos, parentes , ou ver na praia, e na face das pessoas que encontrava na grei:

A turma de fora tinha um rosto muito mais alegre, de expectativa, do que a maioria dos adultos que eu via na grei- e olha que eu era teen.

Comecei a reparar que as programações eram parecidas com as de hoje, nos finais de ano:

Música pra aquecer o culto, enquanto o povo vai chegando, e não para louvar a Deus;

Ceias arrastadas, para espaçar o tempo:

A distribuição de pão e cálice, que numa grei com 400 pessoas dura 10 minutos, o pastor olhava para pianista e regente, e parecia CD riscado:

Era uma repetição sem fim da mesma música...a distribuição se arrastava por longos 40 minutos...tudo para espaçar o tempo, já que este era longo.

Ano novo dentro de igreja, geralmente é sinônimo de melancolia.

Aí, chegava a pior parte....

O pastor, em vez de encerrar uns dez minutos antes da meia noite, pois a galera queria se abraçar (inicialmente, pois com o passar dos anos, viram que isso era muito difícil), se empolgava no seu discurso vazio, e cansou de passar da meia noite...

Ás vezes nem o escutávamos direito, pelo barulho dos fogos...um olhava pra cara do outro, querendo abraçar...mas ele seguia falando...

Teve uma que olhei no relógio da grei, e já era meia noite e vinte...e ele falando.

Na época, não tinha muito esse negócio de ter ceia como tem hoje, nas igrejas, e iámos embora para nossas casas, comer.

Nós, que estávamos ali dentro,nos sentíamos como as únicas pessoas na cidade que não tinham atravessado o ano, quer dizer:

Tudo era atrasado...o cumprimento de feliz ano novo,quando este já tinha chegado uns 20 a 30 minutos antes...

A sensação de estarmos duas a três horas juntos, mas ao mesmo tempos distantes, já que não podíamos nos confraternizar, pois era “hora da pregação (?)”, e soaria como irreverência.
O normal soaria como profano – e depois a sensação de irmos embora, cada um pro seu canto...

Que bela maneira de atravessar o ano, não?

Depois, com o passar dos anos, veio uma nova moda inventada:

Atravessar a meia-noite ajoelhados na igreja.

Isso era um tormento para as senhoras idosas – que não conseguiam fazê-lo, por causa de seus joelhos com artroses.

Mas como elas não queriam “desagradar a Deus”, faziam esse “sacrifício pra Ele.

A religião cristã, ao longo dos séculos, sempre gostou de incitar um sacrifício físico aos fiéis...

Isso começava uma meia hora antes da meia noite, e a cara de dor que especialmente os mais velhos faziam, era de lascar...

Mas se era pra “Deus lhe dar um ano bom”, o “sacrifício” valia a pena...como se Deus precisasse disso...

Isso também quebrava meu esquema, que já tinha armado com os restante dos teens:

Aquela altura do campeonato, faltando dez pra meia noite, a gente começava a sair, pra ver os fogos estourando exatamente á meia noite, no céu:

Havia um revezamento de saída, pra não dar na pinta...

Um grupo saía uns 20 minutos antes, outro, 10 minutos...

Só que geralmente fica alguém na porta, tomando conta...e quando se tem oração, geralmente esse alguém fecha a porta, não abrindo pra ninguém...o que fazer?

Depois de um ano que essa moda de passar de joelhos se iniciou (era horrível...depois de 5 minutos, os própios adultos se distraíam...nego dormia...adultos passavam recados pra quem estava ao seu lado rabiscando no boletim...) ficamos trancados.

No ano seguinte, antes desse momento doloroso, saíamos antes dele- precisávamos ver os fogos!

Até que, adianta aí uns 3 anos, fomos descobertos por um diácono pitbull, daqueles que faziam varredura na igreja ,tal como cão farejador do esquadrão anti- bombas.

Ele deu um sporro daqueles bem escandalosos, e gesticulando muito, mandou que a gente entrasse – senti que se assim não fizéssemos, poderíamos até levar uns cascudos...

Sim, eu sabia via minha mãe, que soube via reunião de senhoras, que souberam via “pedidos de oração” (um dos maiores antros de fofoca dentro da grei) quem era aquele sujeito.

Ele tinha o “pequeno hábito” de jogar as cuecas que ele achava malpassadas pela mulher, na cara dela – ordenando que ela as passasse novamente.

Depois, desenvolveu o “pequeno hábito” de enfiar a mão na cara dela...sabe como é, para aliviar o stresse...

Por último, desenvolveu o “pequeno hábito “ de transar com a empregada dentro de casa, até que um dia a mulher chegou mais cedo e os pegou em “posições que ela nunca tinha visto na vida...”

O que será que chocou mais:

Ver a empregada com o maridão... ou ver as “posições desconhecidas?”

Disso, eu nunca soube...

Bem, de tudo extraímos uma lição, e para você mulher que me lê, é:

Passe bem as cuecas do seu marido – kkk!!

Passando-as direitinho, você não passará por problemas maiores!

Enfim, como o que vale em igreja de tijolo é a aparência, entramos para fingir na aparência de piedosos que se ajoelhavam buscando no Senhor um ano bom, torcendo para que o diácono de aparência pitbull não dedurasse a gente para os nossos pais.

A vida de aparências na grei não é linda??

Bem,os anos foram se passando, e chegou um novo modismo de fim de ano...

Finalmente, nossos joelhos ficariam livres da passagem de ano (até hoje, me lembro de pouquíssimas vezes que me ajoelhei pra orar- eu oro deitado, sentado ou em pé ,ou mesmo andando).

A nova moda de atravessar o ano agora chamava-se posse de diretoria.

A diretoria eleita pela igreja, para o exercício de mais um ano de mandato, tomava posse na noite do dia 31- quem foi o gênio autor dessa idéia?

Assim, cansei de passar, anos a fio, o cruzar de um ano novo vendo gente tomando posse na frente da grei, enquanto pipocavam os fogos...ia pra lá de meia-noite e meia:

Fulano de tal, para o cargo de tesoureiro...e ia lá o cara na frente em destaque, perfilado junto a outros chamados...eh, virada boa de ano...

Eu mesmo tomei posse em alguns anos...

Tomava a posse de um cargo, mas perdia a posse do ano novo...

Tomava a posse de um cargo, mas perdia totalmente a posse da alegria de um momento único...

Tomava a posse de um cargo, mas perdia a posse da confraternização.

Finalmente, por último, antes de minha “santa revolta”, veio a fase do “Rompendo em fé.”

Você que é de grei conhece:

É aquela balada gospel que até hoje cantam por aí nas igrejas.

Eu passei uns seis anos seguidos escutando essa música interminavelmente, pois a moda agora era romper o ano cantando “rompendo em fé.”

Alías, escutei muita música do Edson e da Ana Feitosa antes deles ficarem famosos, com a banda da comunidade da zona sul:


Eu namorei a prima dele, e íamos numa reunião que tinha ás sextas feiras na casa da mãe dele, aqui na Tijuca, onde a gente cantava tudo isso o que seria gravado anos e anos depois.

Também, frequentava a igreja deles escondido da minha, a comunidade Rios de água viva, que era um salão alugado aqui na Tijuca.

Cantávamos todos juntos (inclusive o Élmer, irmão dele, e a Marta, na época namorados, que depois se casaram e estão hoje também na banda de back vocals).

Eram outros tempos, de violão, voz , coração e palavra, com comes e bebes no final preparado pela mãe do Édson, na casa deles...

Alías, o Júlio, que foi por muitos anos guitarrista da banda da comunidade zona sul, era o guitarrista do nosso grupo de louvor, quando eu tocava bateria,mas na igreja Batista.

Hoje todos se gospelizaram, e como tudo que se gospaliza, pra mim perde o encanto:

Não são mais a mesma coisa...especialmente pra quem os viu de início.

Depois de tanto tempo,eu não aguentava mais romper o ano “rompendo em fé”:

Estava quase com o tímpano rompendo de tanto cansaço de ouvir aquilo alto.

E as mensagens pastorais eram uma lástima...

Em vez de pregar sobre fé, esperança, amor, renovação para um novo ano, só se ouvia eles ( os pastores restantes que vi ao longo da vida, nessas épocas) era malhando:

Malhando iemanjá, os macumbeiros que sujavam a praia nessa época, as pessoas vestidas de branco (pois diziam que eram tudo em referência á macumba – e não era, a maioria era em referência a paz);

Malhando quem não foi na igreja naquele dia...quem bebia champagne...quem foi a praia...quem ficou vendo a virada na tv...

Mas o ápice, o grand finale, a pérola máxima a que assisti num fim de ano na grei, e que me fez desistir de passar o ano nela - e a madrugada, agora sim, comendo ceia, e jogando joguinhos sem graça no salão social tipo imagem e ação, etc, foi a seguinte:

A exortação pastoral inesquecível a que assisti...

Imagine um pastor de púlpito (vai, imagina a cena) apontando o dedão na direção da congregação, e mandando essa, com cara esbravejada, e bem alto:

“ Hoje é dia 31 de dezembro e ainda tem membro da igreja que não deu o dízimo do décimo terceiro salário!!”

Putz! Isso é que é um corta-tesão de fim de ano!

Entende por que depois passei a me mandar para Copa nos finais de ano?

Ou mesmo passar sozinho, como foi esse ano?

No último dia 31, e eu recebi o abraço carinhoso de algumas vizinhas do prédio e da rua, recebi o abraço carinhoso dos rapazes e meninas que trabalham no posto, dos porteiros, etc...

No meu “passar sozinho”, recebi a confraternização de gente do meu dia a dia.

E quando fui a Copacabana,via a alegria estampada no rosto das pessoas, que iam em grupos, com amigos ou família, muito mais alegres do que as pessoas que iam para igreja.

Alías, creio mesmo que, assim como o Natal,em que nessa época vem gente de fora de família, etc, deveria se alterar a programação nas igrejas.

Na minha atual, o culto de Natal é no dia 25, ás 11 da manhã.

Dá pra levar até familiares que não são da grei.

Bem melhor dos que as que insistem em ser no dia 24 á noite, quando tem ceia.

E também não deve ser no 25 á noite, pois se tem uma sensação que já passou, tá acabando.

E pra ser sincero, quanto ao dia 31 de dezembro:

Esse dia é pra ser passado entre família ou amigos- a escolha é de cada um.

Ficar de duas a três horas na clausura de uma grei, e depois a madrugada toda, a título de “pegar benção ", “ter santidade”, “não se misturar com ímpios”, é formalidade, ás vezes farisaica.

Bastava fazer um culto de encerramento-agradecimento do ano no domingo anterior, com almoço, e liberar o povo para passar o dia 31 onde eles quisessem...

Mas será que alguém tem coragem de dizer – e fazer isso?

Lee, cujas piores passagens de ano dentro da grei não se comparam a pior passagem de ano vivida pelas famílias aqui do Rio, onde mais de 60 pessoas morreram em Angra e Caxias, por causa da chuva e queda de barragens...a esses, minha solidariedade.

Sessão Revival especial de hoje presta homenagem as vítimas de Angra:

Yumi Faraci, 18 anos, estudante de arquitetura, faixa preta de Karatê, a filha dos donos da pousada que ficou sobre os escombros...

Yumi mandava bem no violão e na voz....
Sessão Revival traz Yumi Faraci com Boa Sorte:

http://www.youtube.com/watch?v=Yi9xu9-BDrc