terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Festival de Bíblias que Assola o País – Onde nunca se produziu tanto, mas nunca se leu tão pouco




Nunca se vendeu tanta Bíblia no Brasil.

Os editores sabem disso e comemoram – e a cada ano, procuram inventar um tipo de Bíblia diferente para vender.

Desde Bíblia para a garotada, com a turma do Smilinguido (uma formiga crente), passando por Bíblias mais descoladas, como a Bíblia teen, Bíblia camuflada (de guerra), Bíblia Jeans, Bíblias coloridas, Bíblia da mulher (rosa).

Os católicos também tem umas Bíblias descoladas, como a Bíblia católica jovem.

Depois inventaram Bíblias de estudo de tudo o que é jeito – toda editora tem uma.

Existem desde linguagens tradicionais, até as linguagens populares.

Como não se precisa pagar direitos autorais aos autores que a escreveram- por volta de 40 - e nem pra Deus, qualquer editora pode fazer sua Bíblia.

Nem Gutemberg poderia imaginar a quantidade de Bíblias existentes hoje...

Ele, publicou a primeira Bíblia, entre 1450 a 1456, depois de passar trabalhando 16 horas por dia...

Era em latim, com 48 linhas por página: Era enorme...

Publicou entre 180 a 300 exemplares.

Mas pouco tempo depois, ajudou a revolucionar toda forma de pensar do Cristianismo:
Anos depois, veio a reforma protestante.

Já nossas Bíblias de hoje, não produzem o mesmo efeito...

Nunca houve tanta necessidade de reformar o que existe por aí:

O tradicionalismo sem vida com capa de religião, o farisaísmo, a telogia da prosperidade, o evangelho show gospel, etc.

Dificilmente uma igreja brasileira, em maior ou menor escala, não tem um desses elementos.

O que vejo hoje é que, nunca se vendeu tanta Bíblia, mas paradoxalmente, nunca se a leu tão pouco.

O povo compra por achar bonito, ou supostamente, por achar que as notas de estudo vão ajudar a entender, erradamente usando a razão, no lugar da unção.

Alías, são dois os fatores de desconhecimento bíblico a causa de nossas igrejas estarem nessa crise.

Primeiro, é que, por mais que se vendam Bíblias pacas, a verdade é que o povo compra e não a lê.

Ela fica esquecida em algum canto da casa - ou mesmo na grei.

Quando meu grupo de louvor ensaia -na terça, dois dias depois do culto- eu cansei de achar Bíblias perto do canto onde fica a bateria, o piano e outros instrumentos.

Teve um dia que achei 3 de uma vez só...abria e lia a dedicatória que uma mãe tinha feito...e outras, tinha o nome da pessoa...aí fui levar pro achados e perdidos.

É um gaiolão que tem perto da entrada da grei, e ali achei mais sete Bíblias esquecidas, que ficam ali direto.

A verdade é que o povo não lê, ou só quando a lê, é no domingo...

Mas vou dizer uma coisa:

A igreja primitiva também não lia – pelo simples fato de não tê-la.

Só haviam Torás nas Sinagogas – Jesus mesmo leu um texto de Isaías numa delas .

O ensinamento era transmitido via oral, em casa, e depois nos templos.

Depois, veio o tempo que anotavam em papiros, folhas enroladas.

E eram lidas nas igrejas, como as cartas Paulinas – para cada igreja específica.

Eles não tinham Bíblias como nós temos, mas eram cheios do evangelho.

Hoje somos cheios de Bíblias, e vazios do evangelho.

Se o nome de Jesus , fonte de renda em Bíblias, camisas, Cds etc, estivesse nos corações, se o evangelho Dele fosse entendido, e não só vendido, a grei hoje seria outra.

Se as pessoas lessem a palavra, os Macedos, Soares, Waldomiros, Felicianos, Malafaias, Jabes, Hernandes, Ângelos, Gregórios e Palharines da vida não seriam o que são hoje.

As rádios “Gospel” não teriam tanta audiência.

O joio sempre vai se misturar ao trigo -mas jamais seria essa “bola de neve”que vimos crescer em nossos dias.

Veríamos que muitos “apóstolos”, que muitos ministérios, são coisa de homens, e que não tem nada segundo o espírito do evangelho.

Por outro lado, tem a turma que faz da Bíblia um livro de estudo, que quanto mais se estuda, mas se incha, mas também é vazio de evangelho:

A turma da “ teologia” é uma...

Cansei de ver, ao longo dos anos, franguinhos seminaristas que se alimentavam a custa de almoço de domingo na casa dos irmãos ...passavam fome na semana, e comiam como desesperados aos domingos, na casa dos outros.

Vi muitos deles, pouco depois, fazerem mestrado...alguns voltavam lá de fora como doutores, com um canudo em inglês certificando isso.

Voltavam inchados:

alguns bem gordões, mas com inchaço de conhecimento:

Sabiam ler em grego...viraram críticos ferozes...”especialistas” em algum assunto...

Mas totalmente vazios de Deus...cheios de conhecimento intelectual, mas vazios da palavra que se proporam a estudar.

Foi quando os vi, que entendi o que Chefe quis dizer quando disse:

A letra mata, mas o espírito vivifica”.

Lee

Bônus: O “Relato da minha Bíblia”

Olá, sou uma das Bíblias do Lee, falo em nome de todas elas que ele possuiu ao longo da vida.
Ele chegou a ter 11 Bíblias diferentes...hoje só somos quatro, sendo duas as que ele mais usa.

A primeira Bíblia dele ele tinha sete anos de idade...e o início não foi muito promissor:

O primeiro texto que ele leu em mim, foi o de um estupro...o estupro de Tamar.

Talvez por causa disso, ele só veio a ler novamente quando era teen.

Mas só lia para as gincanas dos embaixadores do rei, uma espécie de escoteiros teens que ainda existe, mas já foi mais forte entre os Batistas.

Chegou até a ganhar prêmios por isso- mas era decoreba pura.

A verdade é que ele associava Bíblia com igreja- e como ele sempre participou de igrejas vazias de nós, a palavra, foi ficando vazio também- é claro.

Na verdade, nessa época, perdemos feio para os gibis.

Mais tarde, no seminário, ele percebeu que estudavam só a minha letra...

Foi só quando ele percebeu que me ler, sem nenhuma conotação religiosa, mas como alimento para a vida, é que eu teria algum sentido pra ele.

Ele gosta de ficar quieto comigo, sem ninguém perturbando...nessa hora, num tem tv, internet, não atende telefone...

Percebeu que a melhor hora pra se fazer isso, é quando está só, ou de madrugada.

Ás vezes, lê minha versão na internet – e tira dúvidas dela ali também, assim como pesquisa.

Não tem paciência de seguir programas de estudo...ele me lê aleatóriamente, na maioria das vezes.

Ah, sim, ele nunca me teve como sagrada, materialmente falando – ele sabe que sagrado são as palavras, quando lida em espírito, com o coração, e não páginas abertas:

Você nunca vai me ver aberta no salmo 91, por exemplo, na mesa dele...

Alías, já servi de apoio de travesseiro, de apoio de ventilador, e até mesmo de apoio de pé, deitadada no sofá, apoiando os pés dele...

Cansei de ficar ao chão, após as leituras dele, para mais tarde ser levantada do chão – e voltar para o mesmo chão, ás vezes, num canto...

Vez por outra, ele fica alguns dias sem me ler...mas quando volta, é capaz tanto de ler livros inteiros, quanto congelar num só capítulo, meditando nele, lendo e relendo...

Ao contrário de muitas de minhas colegas, sempre achei bonito o fato de ele me ler pra ele...explico.

Nos últimos anos, ele nunca me leu para ter uma ideía do que ia pregar...ele lia pra ele mesmo, até quando vinha um insight – que ele chama de fluir divino- do que era pra pregar.

Por duas vezes, esse fluir só apareceu minutos antes de começar a falar – ele me folheou até achar o texto que lhe veio ao coração.

Hoje, mais livre, ele é capaz de pregar só comigo -sem esboço nenhum lhe prendendo.

Também não me folheia hoje para ver o que vai escrever...isso não funciona com ele.

Ele sabe que serve ao Mestre, e não a mim, alías eu também sirvo ao Mestre – e não o contrário...acredita que tem gente que me endeusa mais do que ao Mestre?

Ele não tem preferência por nenhuma Bíblia de moda, ou mesmo de estudo:

Acredita que ele me comprou por apenas 5 reais? Sim, acredite, eu sou simples.

Ele não costuma me rabiscar, colorir: acha que isso é coisa pra criança, rabiscar e colorir.

Ele nem me marca- não tenho fitinha, como disse, sou simples – ele vê o capítulo e livro que ficou, e depois vai até a ele novamente.

Não tem recadinhos, propagandas de grei, fotos, bilhetinhos, envelopes, dinheiro, nada disso dentro de mim, ele acha tudo isso frescura.

Bom, essa é a nossa relação...

E você, Bíblia de quem está lendo esse relato...como é sua relação com seu dono?