terça-feira, 2 de março de 2010

As Gordinhas são Preciosas, Sim


Na minha luta para tentar ver a maior quantidade possível de filmes indicados ao Oscar (que esse anos são dez, retornando a quantidade original que era há mais de 50 anos atrás), fui ver “Preciosa” lá em Botafogo.

“Preciosa” tinha chegado ao Tijuca, mas depois da primeira sessão, impossível pelo trabalho (a não ser no sábado ou domingo) a próxima seria só á noite.

Assim fui ver no espaço de cinema , no iniciozinho da noite,em Botafogo...ia até postar ontem, mas a net tava lerda.

Para esperar a sessão, dei um pulo para ficar no Botafogo Escada Shopping, único shopping em que você vê as lojas das escadas rolantes, aqui no Rio...ninguém merece.

Foi aí que avistei um Starbucks...um Starbucks!

Eu sempre quis tomar um café da Starbucks, mas só tinha no shopping Leblon...

“Saltei” da escada, e agora estava próximo de realizar um sonho de cinéfilo:

Tomar café como nos filmes americanos – de copo plástico!

Sim, pois aqui nós tomamos só em xícaras...ou naquele copinho “de pinga” da padaria, onde botam um pingado.

No atendimento, a coffee-girl me dá o valor, e diz os “componentes” de cada copo...eu podia até (e fiz) tomar café com leite desnatado!

Igualzinho na padaria do seu Manél, onde o leite é tão gorduroso, que até parece aquela cola polar, que as crianças usam no jardim de infância!

Assim que recebo meu primeiro, inédito, e histórico copo Starbuckiano, perguntei para a Coffee-girl onde estava o canudo, já que, ao ver o furo do copo, e acostumado as cocas da vida, pensei que era pra colocar canudo...

- Não aconselhamos a colocar canudo, você pode se queimar...é por aí que você bebe, disse ela.
Putz...ao perceber meu mico, imediatamente olhei para ver se alguém viu nosso diálogo...ninguém...ufa.

Isso é que dá ficar tomando café Pelé, na padaria do Manél, por anos a fio!

Sorvi meu Starbucks...pois ele você não bebe, você sorve...que delícia.

Tirei uma foto do celular para registrar o momento...uma foto do Starbucks...e como recordação histórica, olhei prum lado, pro outro, e meti o copo dentro da minha mochila!

Continuei minha escalada no escada shopping, e das escadas rolantes, avistei meu novo alvo:

A Iogurteria.
Antigamente, só existiam sorveterias...agora, iogurterias...que chic.

Nessa iogurteria, você dá o seu nome, e na hora eles te chamam pra atender.

Você pede um iogurte, e pode acrescentar um topping, espécie de complemento, por um real.

Isso foi um problema...

Eu já venho tomando isso com frequência aqui no Tijuca...mas não tinha o topping, o complemento que fica por cima, que eu vi ali na hora:

Quando bateu o olho, vi os ursinhos de jujuba que eu comia quando moleque, na Alemanha.

Se isso fosse um seriado, você já estaria me vendo em flashback – a la Lost, comendo meu gummi bear (literalmente, ursinho de borracha), quando era pequeno, na loja de conveniência que tinha lá perto de casa.

Eu já sabia qual seria meu novo topping.

- , me chama o atendente, falando aportuguesadamente meu nome...

- Lee, corrijo,eu, indo ao balcão...

- Ah, Lee, se corrige o rapaz sorridente...

O problema é que tinha formado uma muvuquinha...e não queria ninguém me vendo pedir meu gummi bear pro atendente, que pelo “sotaque” e jeito afetado, era gay...

Iam pensar que eu também era! Como sairia dessa?

- Pois não, senhor Lee ,qual o seu topping? Veio o sorridente rapaz, “alegre” por me atender.

Na minha boca se formaram as palavras “gummi bear”- que quase saíram...

O problema, era que ali eles se chamavam...”ursinhos brilhosos”...mais aviadado do que isso, impossível.

- Errr...de Jujuba, arrisquei, torcendo para ele ir até os meus ursinhos.

- Ahhh...de Jujuba, não temos, senhor Lee, respondeu o rapaz carregando mais ainda no sotaque gay - e muito “preocupado agora comigo”.

Num dá pra esse cara parar de me chamar de senhor Lee?”, pensei...acho que ele gostou do nome.

E como não tem?...será que ele não sabe que meus ursinhos são feitos de cristais de jujuba?

Eu compro meus ursinhos escondido, toda semana, na doceria do Shopping Tijuca.

“Esse viadinho vai queimar meu filme”, pensei, olhando pra fila de espera que se formou ao meu lado.

-Errr...”aquele ali”, disse apontando pros ursinhos.

- Kiwi?

- Não, “aquele ali”...

- Abacaxi?

-Não, do lado do abacaxi...

- Sucrilhos?

"Putz...esse cara realmente vai me entregar", pensei.

Nisso,sentia o respirar de impaciência começando ao meu lado...sem falar que a demora do rapaz, chamou a atenção pro atendimento.

Eu teria que me expor, não tinha mais jeito...

- “Ursinhos”, disse baixinho...

- Ahhh...fala um pouquinho só mais alto, me disse, com complacência gay.

- “Ursinhos”.

- Ahhh! O senhor quer (bem alto) URSINHOS BRILHOSOS !!

Eu juro que entendi “Ursinhos carinhosos”- e pela cara que a galera fez, eles também entenderam do mesmo jeito, todos me olhando, ao mesmo tempo, com olhar de riso!

Pronto, meus ursinhos haviam me entregado aos leões:

Geral deve ter pensando que eu era gay...ainda mais que tava de brinco e com cabelo preso.

E com um atendimento próprio, “personalizado” pelo rapaz que ficou ainda mais alegre comigo, após a “descoberta dos ursinhos.”

Como o tempo é precioso, corri pra ver a “Preciosa”,pois tava quase na hora, e era ali perto, no Estação Unibanco de cinema.

A Preciosa, é uma teen de 16 anos, que deve pesar uns 120 kilos.

A história é um drama dos mais pesados- em todos os sentidos- baseado num livro.

Sua mãe- se é que pode se chamar aquilo de mãe – só a chamava de baleia pra cima:

Ela, que é muito inteligente, devido a auto-estima baixa, foi ficando burra -outro dos xingamentos constantes da mãe, e dos mais leves.

Pouco antes, na sala de espera, vi duas gordinhas, uma teen, lindinha, e reparei no comportamento delas, que não estavam juntas.

A mais velha, foi comprar pipoca, e passou umas meninas, que comentaram sobre ela, fazendo piadinha...ela ouviu.

Ficou muito chateada, com a cara fechada...sentou e foi comendo a pipoca de cabeça baixa.

A outra, teen como a Preciosa do filme, procurou ficar no lugar menos “visível”, mais afastado...elas quase não olham para as pessoas, com medo.

Nítidamente, elas sofrem com o preconceito por serem gordinhas...numa sociedade que mais expõe o corpo, como a nossa...

E que esse corpo ou tem que ser magro-esquelético a la modelo passa fome, ou tem que ser malhado de academia.

Gordinhas em geral tem que lutar com a baixa auto-estima, pelas gracinhas dos outros,e pelo referencial distorcido:

Não existe referencial de corpo feminino perfeito, a não ser a distorção promovida pela mídia, no seu mundo de big sisters.

Alías, por lá tem, ou tinha, sei lá, num vejo aquilo ,uma complexada com o corpo, vi num flash de reportagem.
A referência da mídia antigamente era Marylin Monroe, que era cheinha..

A gordinha teen, então, sofre bem mais do que as outras pois, é a fase de maior gozação, a da escola;

Todas elas sofrem com a questão da roupa- no escada shopping, só vi uma loja para gordinhos, e aqui na Tijuca, pelo que me lembro, só tem uma, fora do shopping.

E em geral, não são roupas bonitas não...oscilam entre um “saco de batatas” pra se vestir, e “roupa de velho”, como dizem alguns, pois é caretamente recatada.

Elas sofrem com a vida sentimental, assim como a Preciosa do filme, que sonhava com um namorado...

E olha, tem cada gordinha linda...mas elas se se retraem, pelo próprio olhar das pessoas, em direção a elas, que varia entre o jocoso e o “que pena que você é gorda”.

As gordinhas são muito Preciosas,sim...quase todas que conheci ao longo da vida sempre foram muito amigas, inteligentes, e confiáveis...

Eu até “fiquei” com uma, quando era teen ( e não havia esse termo, “ficar”, simplesmente se ficava sem usar esse termo)...

Tamara era lindinha , tinha cabelão preto e era branquinha...filha de um pastor luterano que era vizinho nosso..mas teve que voltar para lá pro sul, pois o presbitério chamou o pai dela de volta.
Na época pré-internet, sem mails e o msn (que odeio, num tenho muita paciência pra isso) me mandou uma carta de lá, mais a comunicação foi ficando rara...

Teens de antigamente, não tinham paciência pra ficar colando selos em cartas, como nossos pais..e minha letra é horrível...ainda bem que chegou o e-mail, depois.

E você gordinha, levante sua auto-estima...saiba que as magras que te zoam/zoaram ao longo da vida, também tem celulite, e o corpo delas vai mudar com o tempo...

E saiba que, acima de tudo, O Pai te ama, do jeito que você...cuide sim, de sua saúde, que é mais importante do que estética...

Mas se quiser emagrecer, tenha paciência e perseverança:

Não tome remédios, re -eduque sua alimentação...

Particularmente, acho cirurgias pra isso algo muito forte...

Você levou anos pra ficar assim – por quê não esperar um bom tempo, com perseverança, até voltar a ter um peso em que se sinta bem?

E não se esqueça que genéticamente, uma parte das pessoas são propensas a serem “cheinhas”...não faça disso uma neurose.

Enfim, vejam a Preciosa no cinema- e o mundo cão que a cercava ...

O filme, que tem seis indicações pro Oscar, é tão bom, que até a Mariah Carey, que faz uma assistente social, e o Lenny Kravitz (ambos cantores), que faz um enfermeiro, estão bem.

E tratem muito bem as gordinhas...

Elas são muito “preciosas”.

Lee

Bônus: Na saída do cinema (se fosse um filme, essa parte apareceria na telinha ao lado dos créditos finais )

Fugindo da chuva, fui quase correndo em direção ao metrô...até que ouvi, pouco antes de descer as escadas:

- Senhor Lee!

Putz, já ouvi essa voz hoje, pensei...

Quando olho, era o rapaz alegre que tinha me atendido, indo embora pra casa.

- Eu não vou mais me esquecer...senhor Lee!, disse, me apontando, e andando na direção contrária.

Sorri, e desci as escadas do metrô...só aí dei uma gargalhada, dizendo pra mim mesmo:

- Eu também não!

Na Sessão Revival , O trailer de Preciosa:

http://www.youtube.com/watch?v=bmp0Dlz0HwY