quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tudo Pode dar Certo


Me senti impelido a ver esse filme ontem.

Não é filme comercial, por isso tive que ir ao Estação, onde passam filmes não comerciais, aqui no Rio.

Eu sabia que o Chefe queria que eu o visse.

E olha que não sou muito chegado a Woody Allen...

No filme (Whatever Works, cuja melhor tradução seria “seja lá o que dê certo”) a base narrativa parte de um sarcástico sessentão ranzinza, hipocondríaco, com síndrome de pânico, desgostoso da vida.

Intelectual brilhante, ex- professor de uma das melhores faculdades americanas, já concorreu a prêmio Nobel de física.

E também já tentou se matar duas vezes, mas até nisso era azarado:

Só conseguiu ficar manco de uma das pernas.

É nesse caos de vida dele que surge Melodie, fugida da casa dos pais na conservadora Mississipi, e que acaba parando em Nova York.

A jovem acaba mesclando necessidade de sobreviver em local completamente diferente com figura paterna, e nesse processo acha que se apaixona pelo velho:

Não, ela não é interesseira, só muito ingênua mesmo.

A mãe acaba indo atrás dela – e depois o pai – e mal sabe que todos irão mudar radicalmente de vida, ao se descobrirem de verdade.

Inclusive a bela Melodie...

Não que esse “radicalmente” seja positivo, em alguns casos...

Mas o interessante do filme, é mostrar pessoas de igreja (toda a família vinda do Mississipi) , que na verdade, viviam uma vida de fachada.

A mãe de Melodie, que achava que só podia fazer tortas de maçã na vida, e ir a igreja toda semana ,descobre que na sua paixão por fotografia existia uma artísta plástica reprimida, que agora até expunha sua obra em vernissagens;

Descobre que na verdade não era frígida – isso era culpa do ex- maridão, que foi atrás dela – e que sua sexualidade reprimida por anos a fio agora se manifesta como um vulcão;

O maridão, agora ex, que foi atrás dela, legalista religioso de pedigree, descobre que a traiu com sua melhor amiga pra ver se era mesmo homem:

Não havia sexo entre os dois, quer dizer, quando havia, como ele mesmo disse, era “nojento”.

Tudo porquê, na verdade, ele descobriu ser um gay reprimido, vivendo de fachada, tanto no casório, quanto na grei.

Melodie também descobre seu verdadeiro amor, mais próximo a sua realidade, e não um homem 42 anos mais velho.

Mas o velho também, nesse processo, muda de vida, se tornando um pouco mais humano, aceitando pessoas que não são de sua classe social/ intelectual/modo de vida.

As tiradas são ótimas, não é um filme comercial ( só tinham 8 pessoas num cinema que cabem 66 lugares).

Alías, nesse cinema, tem uma gata tipo angorá chamada Catarina, que mora lá há quase 19 anos.

Catarina circula na parte do salão de espera do cinema (é cinema de rua, em Botafogo), e tem contato com clientes, a não ser os frescos que não gostam de bichos:

Veio pedir carinho, cheirou minha mochila, ficou se roçando como os gatos fazem;

E quando fui tirar um foto dela do celular, deu uma dentadinha nele, pensando que era algo de comer.

A gerente veio, e a levou para dentro de sua sala, pra não incomodar quem não gostasse de bichos...ela só tava ali porquê estava vazio...

Mas Catarina mora dentro do cinema mesmo, e é muito fofa.

A situação vista do filme, me faz lembrar de várias situações que as pessoas dentro de igreja mascaram em suas vidas.

Para a igreja de Mississipi, o casório dos pais de Melodie deveria ser” uma benção”;

E a mãe dela, devia ser “uma benção” abastecendo a cantina com suas tortas de maçã.

E se você dissesse que o pai dela era gay reprimido, soaria como blasfêmia.

Essa ficção do filme, mostra muita verdade existente hoje em famílias de igrejas:

O que importa, na verdade, é a aparência.

É o gay enrustido que, sabedor de seu conflito, namora e casa com menina de igreja, esperando se tornar homem, enganando ela e a si mesmo;

São as mulheres de igreja, que cumprem um papel esperado por estas, tanto no aceitar um homem que trai como sendo um fardo;

E aceitar ser uma eterna “fazedora de tortas” na mesma, seja ela qual for.

Sua "torta" pode ser cantar no coral, a pedido da/o regente, pois a tem pouca gente pra cantar;

Talvez você ache mesmo que essa “torta” é algo tão normal no seu cotidiano de grei, que chama isso de “ministério”.

Sua “torta” que todos esperam pode ser entregar um boletim, participar do louvor, ser tia das crianças, participar da união de adolescentes ou jovens, de reunião de senhoras...

Ou mesmo da reunião de homens – eles também tem suas” tortas”.

Muitos confundem as tortas de maçã cotidianas da igreja, com vida cristã.

Por isso, sucumbem ao primeiro vento forte que bate, desmanchando as tortas:

Não estão acostumados a levar uma vida que não seja “torta”.

Sim, pois muita gente leva uma vida torta dentro de igreja que ensina que" fazer tortas no cotidiano desta, é vida cristã".

Que ensinam que trabalhar na igreja é garantir uma vaguinha no céu.

Que ao levar uma vida fazendo “tortas” pra Deus, é estar no caminho Dele.

Elas não ensinam a caminhar no evangelho, mas tão somente a fazer tortas.

Não mostra como estamos, quem somos sem Ele;

Como precisamos trilhar o caminho...só mostram regras.

Em toda a situação em que uma pessoa estava fora do caminho, Jesus sempre a tratou com compaixão, apontando o caminho correto.

Só não o fazia com sarcásticos, que queriam pegá-lo com “pegadinhas”;

Com gente que no fundo do coração, não queria mudar de vida;

E principalmente, escrachava com os Fariseus.

Fariseus, ontem e hoje, são pseudo-religiosos, viventes de aparências.

Só ensinam a “fazer tortas pra Ele”, cheio de ingredientes, que estes mesmos não seguem.

Aprenda a seguir o caminho do evangelho, e não a fazer tortas na igreja:

No final da história, fazendo isso, você verá que Tudo pode dar certo.


Lee
Na Sessão Revival, o trailer do filme: